sábado, 29 de março de 2025

Sol II (segundo o sol)

Hoje pedi ao sol que me emprestasse um pouco do seu brilho
Um pouco da sua habilidade de recomeço
Um pouco da sabedoria de refazer tudo do nada
De fabricar auroras reluzentes chamuscadas de luz
De indicar o caminho da vida a partir de moléculas aleatórias no espaço 
De agregar e de dissipar 
De evaporar 
De criar outros estados da matéria 

De, sendo o mesmo há milênios
Ser capaz de milagres tão distintos : 
Dar origem às nuvens
Provocar seu desfazimento
Ressecar até a última gota do solo 

E nunca se cansar de fazer todo o caminho de novo
De entender o espiralamento da existência como coisa óbvia
A repetição não como tédio 
Mas como novidade do hoje 

E assistir ao desenrolar da vida que lhe cerca 
com seus dois olhos de brasa 
Sorridentes,
Ávidos pelo futuro.

terça-feira, 25 de março de 2025

Sol

Feriado.
As pernas abertas para o sol de março 
A luz vasculha todos os lugares esquecidos 
O sol é uma coisa quente que a pele sempre ama secretamente. 

O ano novo do sol se inaugurou esses dias em áries: 
A loucura sacolejando dentro como a roupa no tambor da máquina
Voltando 
girando 
batendo 
timidamente se esfacelando pelo contato 

E o sol quarando tudo
O sol quarando até a gota mais querida dos orvalhos passados 
Evaporando as plantas frágeis
Os musgos 

Evaporando os mofos 
(Essa parte, amém) 

As nuvens deslizam preguiçosas para longe do sol como quem diz que o céu hoje é dele
E brincam de recortar o azul 

Suspiro. 
Que pode um mortal contra a força de todos os astros? 
Suspiro. 
Passa um urubu bem miudinho.
Suspiro. 

Que pode um mortal, senão, feito urubu na nuvem, dançar com a força de todos os astros?