Hoje pedi ao sol que me emprestasse um pouco do seu brilho
Um pouco da sua habilidade de recomeço
Um pouco da sabedoria de refazer tudo do nada
De fabricar auroras reluzentes chamuscadas de luz
De indicar o caminho da vida a partir de moléculas aleatórias no espaço
De agregar e de dissipar
De evaporar
De criar outros estados da matéria
De, sendo o mesmo há milênios
Ser capaz de milagres tão distintos :
Dar origem às nuvens
Provocar seu desfazimento
Ressecar até a última gota do solo
E nunca se cansar de fazer todo o caminho de novo
De entender o espiralamento da existência como coisa óbvia
A repetição não como tédio
Mas como novidade do hoje
E assistir ao desenrolar da vida que lhe cerca
com seus dois olhos de brasa
Sorridentes,
Ávidos pelo futuro.