quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Temporal

Chovia. Grossas lágrimas das nuvens encharcavam-lhe a camisa, a calça, os cabelos... Tinha que esperá-la. Mesmo debaixo daquele temporal, algo lhe fazia sentir que ela estava perto, que viria sim. Durante os últimos seis meses, lhe tomara todos os pensamentos. Onde estaria? Porquê fugira dele? Será que fugira dele? Estaria viva, ao menos? Todas as células do corpo ansiavam loucamente por uma resposta, mesmo que esta significasse o pior. Teria sido sequestrada? Seria ela mais uma pobre vítima da maldade do coração humano?

Naquela tarde teria a resposta, sentia isso lhe arrepiando a pele. Iria ver. Desejava vê-la, mas estava consciente de que também poderia ver seu assassino. Mas ali, ensopado, sentia que seria ela. Duas horas passaram, e lhe parecia uma eternidade. Cansou de esperar. Frustou-se. E resolveu ir embora.
Quando finalmente caminhou até o final da rua, ouviu uma voz:
"Corta!"

Era o diretor, é claro. A chuva cenográfica foi desligada, as câmeras também.
"Bom trabalho, pessoal! Já chega por hoje."
De volta à vida real, se dirigiu ao camarim para vestir uma roupa seca. E foi para casa dormir.
Amanhã gravaria a cena do beijo, para delírio dos telespectadores.

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