Mal pregara os olhos, e o despertador já estava tocando, que nem todo dia. Em sua mente já ouvia os primeiros acordes de Alagados - tradução musical de seu dia, literalmente, ou quase. Obrigou o corpo a desgrudar da cama que naquele momento parecia a melhor do mundo apesar do colchão velhinho, e o player imaginário fez chegar a seus ouvidos, juntamente com o raio de sol que escapava à fresta da janela e agora lhe banhava o rosto, as primeiras linhas da canção: "Todo dia, o sol da manhã vêm e lhes desafia...", na voz dos Paralamas do Sucesso. Pôs os pés no chão friorento e, junto ao arrepio frio que o choque térmico causou-lhe na espinha, ouvia "traz do sonho pro mundo quem já não o queriaaa...". "Palafitas, trapiches, farrapos: filhos da mesma agonia" - era a água congelante do chuveiro que lhe fazia arder a pele e arrastava junto a si os resquícios de indolência que resultavam de uma noite mal dormida. E, com a canção ecoando em sua mente, se arrumou e saiu.
"E a cidade" lá fora, não tinha "braços abertos num cartão postal" mas trazia sim, na vida real, punhos fechados que lhe negavam oportunidades, cidade que, diariamente, "mostra a face dura do mal".
Caminhava agora pelas ruas, não de Trenchtown ou Favela da Maré, mas encontrava-se alagado. Alagado num mar revolto, feito de gente e de concreto, na ferocidade do horário de pico. Passos apressados de quem precisa voar pra manter a si mesmo e a mais alguém naquela selva de pedra, mesmo sem ter asas. E a esperança?, perguntava-se. "A esperança não vem do mar, vem das antenas de TV"- novamente o eco da canção em sua mente. É, a esperança não podia mesmo vir do mar gris em que se encontrava. E como qualquer outro, só lhe restava mesmo torcer pra que hoje à noite, no último capítulo da novela, o mocinho da novela casasse com a mocinha. E ir vivendo, que nem todo dia: "A arte é de viver da fé, só não se sabe fé em quê".
Caminhou alguns minutos em silêncio absoluto: vácuo de palavras e pensamentos. E aí, a palavra-luz se acendeu em sua mente: não. A primeira vez que pronunciou, mais parecia uma indagação que uma resolução: não?! E falou novamente: não. Depois de repetir algumas vezes, adquiriu um tom respeitável, apesar de ainda meio trêmulo.
Sobre os mares cinzentos do concreto nascia um ser humano iluminado.
Ali, alagado, nascia um cidadão.
não gosto muito de paralamas, talvez usasse "mar de gente" do rappa, mas o texto ficou muito bom, adorei o desfexo. As vezes é a palavra que falta.
ResponderExcluirHummm, com Mar de gente ficaria ótimo mesmo. Mas a coisa é que eu já acordei mesmo com Alagados na cabeça milhões de vezes, tinha que escrever sobre ela hehe.
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