Apesar de o sangue subir-lhe à face, no fim, cor alguma restava. E por maior que fosse a revolução dos sentidos ao vê-la, era sentimento efêmero. Quando ela lhe fugia aos olhos, nada restava.
Vasculhava a memória em busca de algo que sinalizasse a existência concreta de sentimento, um fato que justificasse aquele bem querer absurdo, qualquer coisa além da superficialidade da atração física, que era óbvia, e de razões óbvias: ela era linda. No entanto, concluiu que o que buscava não existia. Sequer a conhecia. Nutrira aquela afeição baseado unicamente no que via. Fora insensato. E frívolo. Morria de amores. Mas, era pelo quê mesmo? E ao perguntar-se, obteve o vácuo como resposta.
Não havia nada real que justificasse aquele amor. Fora traído por si mesmo. Por seu próprio corpo, seus hormônios.
E resolvera, naquele momento, que daria menor confiança aos sentidos. Confiaria menos na audição e extinguiria o crédito à visão. Pararia de agir feito um adolescente bobo. Afinal, tinha anos de experiência com o sexo feminino. Bastava ativar o modo sedução, e todas elas lhe caíam aos pés. Enlaçavam-se em suas palavras, cediam ao seu olhar.
Mas, pensando no assunto, Ela não cedera ao seu olhar. Tinha simplesmente ignorado seus métodos patenteados e lhe dava 'bom dia' na maior cara de pau. Ela lhe punha de quatro. Numa cegueira que fugia a razão. Amor platônico, irracional.
E só podia ser irracional mesmo. Estivera feito bicho por semanas. Mas, naquele momento tudo ficava óbvio. É claro que não estava apaixonado. O que sentira não passava de uma reação instintiva à rejeição. Por isso seu interior tinha se revirado. Naquela hora, dirigindo pro trabalho, afirmava a si mesmo que acabaria com aquela palhaçada. Ia ser homem, e sapiens sapiens, de preferência. Nem sabia nada dela, ora! Estava resolvido.
Chegou no escritório. Estacionou o carro e subiu as escadas.
"Gabriela?"
"Bom dia Fernando."
E aí, dane-se o que tinha resolvido dois minutos atrás. A testosterona falava-lhe alto.
Iria tentar outra vez, no intervalo. Talvez aquele perfume novo fosse ajudar...
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