É, lembro dele sim...
Até definições lhe eram tocadas pela criticidade...
Costumava retocar até obras completas...
E até num copo d’água esborrotando, fazia gotejar suas impressões...
Pensava, imaginava, agia. Criava uns mundos. Desfazia
outros.
E no silêncio da noite, chorava. É, chorava.
Esvaía-se da consciência, da moral, despia-se de preconceitos,
e tão somente vazava pelos olhos.
É que era tudo tão... perfeito.
Cada detalhe do viver lhe era incompreensivelmente
compreensível.
A vida simplesmente fluía, sublime.
E as lágrimas complementavam-lhe o existir.
Tinha descoberto que o sofrer lhe faria crescer, e sofria como
adubo espiritual. Não hesitava em regar a
alma se a terra se encontrasse seca.
Sim, amava. Com todas as forças que tinha, e junto ao seu
sinônimo, o sofrer.
Apaixonadamente, apaixonava-se pelo máximo que podia.
E por pessoas,
sabores, pelo mar e suas cores...
Por olhares,
sorrisos, em tudo que enxergava, via paraísos...
Até que um dia lhe compraram óculos, e um lenço azul para
limpar as lentes.
Agora o mundo parecia nítido demais... até doía na vista!
E via rugas nas pessoas, dentes amarelos nos sorrisos e
esgotos nos paraísos.
E sua alma leve já não flutuava.
Tornava-se aos poucos, infeliz.
E quando já quase sem cor na alma, terra seca rachada sem chuva,
teve uma idéia que lhe salvou o existir: quebraria o óculos, é claro!
E quebrou. Mas
quebrou só as lentes, e pronto: o mundo era bonito de novo.
E aí, amarrou o lenço azul feito gravata borboleta e saiu
poraí, borboleteando.
Quando passou poraqui, parecia que ia flutuar de tanta
felicidade. Assobiava feito passarinho.
Dizem que dobrou ali na esquina, os olhos rasos d’água, jurando
que via paraísos...
Onde?
Ora, deve estar por aí, seu moço.
Tenho mais o que fazer que vigiar um fazedor de poemas, não acha?
Passar bem.
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