Se houverem outras dimensões, e se o tempo-espaço for
dobrável, e atravessável, e se meu corpo disso soubesse antes que minha mente
pudesse aceitar como verdade, então haveria explicação justificável para a
confusão-explosão dos sentidos ao te ver.
Se para o corpo adivinhar o sentir do futuro fosse fácil e
lógico, se para o tato o dia do toque estivesse logo ali, ao alcance da sabedoria da
pele, eu entenderia o descontrole do termostato e do fluir das águas de meus
rios - e lhes daria razão.
Tenho uma teoria: o desejo é um portal atravessável entre
dimensões.
Cada vez que ele surge é uma porta, uma trilha. A cada nova
porta, curvas, retas, desvios, recomeços. O desejo é sintoma, propulsão e
pólvora.
Explode no corpo como o grito da alma que não pode se locomover
sozinha, que percebe os descaminhos antes dos meus olhos.
Que aponta as
mudanças necessárias.
Que quer me arrastar para uma nova porta.
A porta que vejo agora não é a da minha casa, a porta é
você.
Olhando pela fresta dos seus olhos miúdos, vislumbro a
dimensão outra que se estenderia se eu te atravessasse.
Uma ideia: atravessar você. Estremeço.
E adivinho no corpo este poema escrito nos seus braços e
mãos.
Em meus braços, em minhas mãos, com minhas mãos.
Me atravesso em você. Imagens, sons e cheiros, memórias
criadas.
Palavras me atingem de raspão.
Explodo.
* * *
Nenhum comentário:
Postar um comentário