quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Trilha


Se houverem outras dimensões, e se o tempo-espaço for dobrável, e atravessável, e se meu corpo disso soubesse antes que minha mente pudesse aceitar como verdade, então haveria explicação justificável para a confusão-explosão dos sentidos ao te ver.

Se para o corpo adivinhar o sentir do futuro fosse fácil e lógico, se para o tato o dia do toque estivesse logo ali, ao alcance da sabedoria da pele, eu entenderia o descontrole do termostato e do fluir das águas de meus rios - e lhes daria razão.  

Tenho uma teoria: o desejo é um portal atravessável entre dimensões.

Cada vez que ele surge é uma porta, uma trilha. A cada nova porta, curvas, retas, desvios, recomeços. O desejo é sintoma, propulsão e pólvora.
Explode no corpo como o grito da alma que não pode se locomover sozinha, que percebe os descaminhos antes dos meus olhos. 
Que aponta as mudanças necessárias. 
Que quer me arrastar para uma nova porta.

A porta que vejo agora não é a da minha casa, a porta é você.
Olhando pela fresta dos seus olhos miúdos, vislumbro a dimensão outra que se estenderia se eu te atravessasse.  

Uma ideia: atravessar você. Estremeço.

E adivinho no corpo este poema escrito nos seus braços e mãos.
Em meus braços, em minhas mãos, com minhas mãos.
Me atravesso em você. Imagens, sons e cheiros, memórias criadas.  

Palavras me atingem de raspão.

Explodo.  


* * *

Nenhum comentário:

Postar um comentário