segunda-feira, 4 de julho de 2022

Não

Melhor a escuridão da casca
que a luz da vitrine
a exposição
a incerteza
a ansiedade
a assimetria: 
ofertar tudo,
não receber metade

Fazer um desfile estético
castrar a selva de pelos 
e os desejos selvagens
docilizar a fala
domar a raiva
cruzar as pernas
pedir desculpas 
encobrir ataques absurdos 
às próprias bordas

Descobrir, muda e pálida de espanto
que meu não é convite para o sim
código perverso de uma linguagem
destruidora de minha subjetividade


Deixe que eu te ensine, querida
você não sabe gozar
quando você pede calma 
é que quer o contrário
se disser que não 
eu transformo em sim
eu é que sei

Sei toda a estrutura 
do seu pensamento
te esquadrinho
adivinhe só
antes mesmo 
que você pense
eu já sei

Leia este livro
ele te ensinará teu lugar
eu sei 
que você disse que não
mas eu sei 
que queria dizer sim

Tudo que você disser 
eu já sei
o que você for citar 
eu já li
até mesmo a sua intuição 
é construção social, 
veja bem

Na verdade 
só eu sei 
dos seus desejos
deixe que 
eu 
te guie 
nessa estrada 
confusa que é você

Você está tão confusa, querida
veja:
se eu 
rasgar a sua roupa
foi você 
quem quis

Venha
é a ssim
que to das gos tam
eu vi nos filmes pornôs
quero ver seu rosto 
fazendo a mesma cara
aliás
seu rosto é o que menos preciso ver

Olhar no olho para quê
conexão não é o que 
nenhuma delas parecia precisar

Dessa vitrine você parece tão bela
continue assim
estática
pra eu 
te ver melhor

Evite respirar
não me contradiga
assim não posso aguentar
(sou frágil)
a culpa 
será
sempre 
sua 



*

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