há flores em agosto
a muito custo e meio sem rosto
brotando do desgosto
desenganadas mas de riso exposto
habitam o compasso decomposto
*
terça-feira, 11 de agosto de 2020
terça-feira, 7 de julho de 2020
Faz de conta
garimpo
poemas
que me
entreguem teu corpo em palavras
que transformem
em imagem memórias vagas
que encarnem
em mim ideias guardadas
construo fonemas
que decifrem
os signos que não vi em teu rosto
que inventem
o que o que não vejo, te deixem exposto
que em meus
sentidos produzam teu gosto
eu caço
palavras
que me falem
de curvas que os olhos não percorreram
que em
minhas mãos escrevam o que não viveram
que me adivinhem
daquilo que não morreram
eu teço as
falas
que me
arranhem com letras que um dia inventei
que me
dissolvam nos olhos em que não morei
que me ponham
no abraço que devaneei
*
segunda-feira, 6 de julho de 2020
Para dizer ao pé do ouvido
sua voz
g r a v e
tece um fio
suave
sugere arrepio
me iça para
fora
de meu brio
a textura
d e n s a
me embriaga
invade a
nuca
não me larga
me ressoa
no
quadril
*
sexta-feira, 5 de junho de 2020
Rainha Carlota
Querido vizinho da rua de trás;
Te escrevo na esperança de que você possa ao menos compreender uma sombra dos motivos que tenho para não cortar minha árvore.
Não é tão simples quanto parece.
Lamento que suas folhas douradas chovam no seu quintal limpinho.
Lamento que quando o vento sopra forte em seus galhos você seja arrebatado pelo medo de que algum galho dela quebre e rache um pedaço do chão de cimento.
Lamento que você olhe para ela a tremular no céu e não veja o que eu vejo.
É que Carlota é uma rainha. E eu a amo.
Ela foi a primeira forma de vida a habitar este quintal que outrora era pura aridez.
Você bem sabe que aqui nem mesmo capim selvagem brotava - nossas casas são iguais, assim como o solo de nossos quintais eram os mesmos, feitos de aterro de construção compactado. Pois bem, você deve lembrar.
Isso antes de Carlota chegar na minha vida, é claro.
Carlota é a expressão da vida pulsante e desavergonhada. Transgressora.
Fato é que esta minha hoje senhora, quando ainda uma muda jovem perfurou este solo devastado com suas raízes mágicas, e orquestrou o milagre da vida em meu minúsculo quintal.
Hoje temos minhocas! Mi-nho-cas!
Você sabe o que é uma terrinha preta, cheia de casinhas maravilhosas das minhocas?
Pois eu sei, de abrir a janela.
Ah! Abrir a janela.
Essa é outra coisa que era impossível sem Carlota aqui. Você sabe esse bafo de quentura que sobe no seu rosto quando você abre a sua janela aí ? Você fecha bem rapidinho né? Pois é.
Eu bem me lembro que isso existia aqui também antes dela.
Mas aqui isso é coisa extinta hoje, Carlota é uma máquina de ar fresco!
Voltemos às folhas que caem.
Juro que tem uma horinha pela manhã que me faz ter certeza da sua realeza - a hora que o sol bate no tapete de folhas douradas aos pés da rainha. Se você visse o resplendor de Carlota nesse minuto você iria entender o que eu te digo.
Até o sol sabe quem é Carlota quando brilha nesse meu quadradinho de quintal.
Pisar nesse tapete de sol e folhas é minha música favorita.
Antes de Carlota, você ouvia bem-te-vis?
Você via borboletas, e beija-flores e abelhas?
Sua copa é uma casa.
Tem pelo menos sete tipos de passarinhos morando nela, pelo que vejo daqui.
Os fios finos de raízes aéreas que brotam dos galhos são a matéria prima dos ninhos.
Vejo as rolinhas carregando e tecendo o berço da vida com eles.
O som que a chuva faz quando escorre sobre a copa-casa é uma coisa ainda melhor que chuva na telha. É como ouvir a chuva de muitas telhas, é o som de muitas casas.
É ouvir o abrigo de muitas vidas.
À noite ela fica salpicada de vaga-lumes, como se fosse sempre Natal.
Às vezes quando fecho as janelas sobram dois ou três no meu quarto.
Fico com os olhos acompanhando o piscar, e durmo com as estrelas.
*
Te escrevo na esperança de que você possa ao menos compreender uma sombra dos motivos que tenho para não cortar minha árvore.
Não é tão simples quanto parece.
Lamento que suas folhas douradas chovam no seu quintal limpinho.
Lamento que quando o vento sopra forte em seus galhos você seja arrebatado pelo medo de que algum galho dela quebre e rache um pedaço do chão de cimento.
Lamento que você olhe para ela a tremular no céu e não veja o que eu vejo.
É que Carlota é uma rainha. E eu a amo.
Ela foi a primeira forma de vida a habitar este quintal que outrora era pura aridez.
Você bem sabe que aqui nem mesmo capim selvagem brotava - nossas casas são iguais, assim como o solo de nossos quintais eram os mesmos, feitos de aterro de construção compactado. Pois bem, você deve lembrar.
Isso antes de Carlota chegar na minha vida, é claro.
Carlota é a expressão da vida pulsante e desavergonhada. Transgressora.
Fato é que esta minha hoje senhora, quando ainda uma muda jovem perfurou este solo devastado com suas raízes mágicas, e orquestrou o milagre da vida em meu minúsculo quintal.
Hoje temos minhocas! Mi-nho-cas!
Você sabe o que é uma terrinha preta, cheia de casinhas maravilhosas das minhocas?
Pois eu sei, de abrir a janela.
Ah! Abrir a janela.
Essa é outra coisa que era impossível sem Carlota aqui. Você sabe esse bafo de quentura que sobe no seu rosto quando você abre a sua janela aí ? Você fecha bem rapidinho né? Pois é.
Eu bem me lembro que isso existia aqui também antes dela.
Mas aqui isso é coisa extinta hoje, Carlota é uma máquina de ar fresco!
Voltemos às folhas que caem.
Juro que tem uma horinha pela manhã que me faz ter certeza da sua realeza - a hora que o sol bate no tapete de folhas douradas aos pés da rainha. Se você visse o resplendor de Carlota nesse minuto você iria entender o que eu te digo.
Até o sol sabe quem é Carlota quando brilha nesse meu quadradinho de quintal.
Pisar nesse tapete de sol e folhas é minha música favorita.
Antes de Carlota, você ouvia bem-te-vis?
Você via borboletas, e beija-flores e abelhas?
Sua copa é uma casa.
Tem pelo menos sete tipos de passarinhos morando nela, pelo que vejo daqui.
Os fios finos de raízes aéreas que brotam dos galhos são a matéria prima dos ninhos.
Vejo as rolinhas carregando e tecendo o berço da vida com eles.
O som que a chuva faz quando escorre sobre a copa-casa é uma coisa ainda melhor que chuva na telha. É como ouvir a chuva de muitas telhas, é o som de muitas casas.
É ouvir o abrigo de muitas vidas.
À noite ela fica salpicada de vaga-lumes, como se fosse sempre Natal.
Às vezes quando fecho as janelas sobram dois ou três no meu quarto.
Fico com os olhos acompanhando o piscar, e durmo com as estrelas.
*
quinta-feira, 4 de junho de 2020
Avesso
Tudo que eu digo é frase em desalinho
o que canto não indica caminho
o meu pranto é vão, é sozinho
De meus dedos tortos saem palavras-flechas
mas estas nem tapam as brechas
e nem podem abrir a porta que fechas
Se você é pipa sou linha de cerol
não posso ser vento nem lua nem sol
se você virar peixe, engasga no meu anzol
*
o que canto não indica caminho
o meu pranto é vão, é sozinho
De meus dedos tortos saem palavras-flechas
mas estas nem tapam as brechas
e nem podem abrir a porta que fechas
Se você é pipa sou linha de cerol
não posso ser vento nem lua nem sol
se você virar peixe, engasga no meu anzol
*
sexta-feira, 22 de maio de 2020
Azul marinho
Nos véus anuviados das memórias cada um é uma cor.
Quando as cores me assaltam por entre os dias, e por entre o pequeno espaço das horas vazias surge da janela uma imagem bonita, é sempre a visita de alguém.
Dias claros pingados de sol amarelo, uma amiga.
Os riscos rosados do poente, uma prima.
O vermelho da melancia, minha avó.
O caramelo amadeirado do violão, um amigo.
O verde bandeira num cacto, outra amiga.
Uma marajó marrom, meu pai.
Uma camiseta branca é um senhor querido que admiro muito.
Uma sapatilha bege é minha professora de balé da infância.
As folhas rajadas da jibóia verde e branca são minha irmã todinha.
Você também tem cor.
A sua cor é o tom de azul profundo do céu logo depois que o sol se põe, quando surgem as primeiras estrelas. Chamam de azul marinho mas de mar não tem nada.
Tem tudo de chuva porque chuva é céu quando transborda beleza.
Tem tudo de água porque é aquarela transfigurada em gente esse azul.
Tem algo de rio porque movimenta este mar.
Tem transparência e tem camadas sólidas.
Faz redemoinhos.
Faz ondinha.
Evapora.
Chove.
Ri.
De repente, uma estrela.
*
Quando as cores me assaltam por entre os dias, e por entre o pequeno espaço das horas vazias surge da janela uma imagem bonita, é sempre a visita de alguém.
Dias claros pingados de sol amarelo, uma amiga.
Os riscos rosados do poente, uma prima.
O vermelho da melancia, minha avó.
O caramelo amadeirado do violão, um amigo.
O verde bandeira num cacto, outra amiga.
Uma marajó marrom, meu pai.
Uma camiseta branca é um senhor querido que admiro muito.
Uma sapatilha bege é minha professora de balé da infância.
As folhas rajadas da jibóia verde e branca são minha irmã todinha.
Você também tem cor.
A sua cor é o tom de azul profundo do céu logo depois que o sol se põe, quando surgem as primeiras estrelas. Chamam de azul marinho mas de mar não tem nada.
Tem tudo de chuva porque chuva é céu quando transborda beleza.
Tem tudo de água porque é aquarela transfigurada em gente esse azul.
Tem algo de rio porque movimenta este mar.
Tem transparência e tem camadas sólidas.
Faz redemoinhos.
Faz ondinha.
Evapora.
Chove.
Ri.
De repente, uma estrela.
*
terça-feira, 28 de abril de 2020
Despertar
Ele tinha seis ou sete anos quando a viu pela primeira vez. À época, não saberia lhe dar nome ou entender bem de onde viera. Foi um conhecer que se completou através dos tempos, em momentos fragmentados que soube colecionar.
Hoje aquele dia era um lampejo frouxo de memória que se esvaía rapidamente, mas que lhe assaltava recorrente, como quem reafirma e reforça e repete a tabuada ou um provérbio que quer fixar: era importante.
Aquele flash, mesmo hoje tão distante, se autoafirmava como eixo e pilar, como pedra sólida do que viria a ser e de como viria a ver...
*
Estava na sala de aula, a classe de alfabetização.
Nas paredes o colorido de um ano inteiro a conhecer a palavra e seu universo, os personagens da Casinha Feliz a convidar para a dança das letras.
Era uma escola freireana, graças a Deus.
Tinham, coletivamente, escrito um livro, cada coleguinha com uma história e um desenho. Estavam no fim do processo e chegara a hora de dar um nome ao livro, ia começar a votação. A professora conduzia o momento com atenção e cuidado: escrevia as sugestões de todos no quadro à giz.
Ouviu os colegas sugerirem vários títulos e achou vários bonitos.
Não lhe ocorria nenhum, mas de repente se ouviu dizer : "Nossas Idéias", e já era ela ali surgindo.
Na hora do voto foi ficando mais e mais surpreso quando, pouco a pouco, os colegas acolheram aquela expressão, e aquele virou o nome do livro no fim.
Parecia que estavam sendo todos atravessados por um comichão, ele pelo menos estava.
Enquanto a professora colocava cada tracinho ao lado do título, cada um um voto, ela foi lhe aparecendo. Ganhou forma, textura, rosto e voz. Suas mãos delicadas lhe abriram a primeira porta.
Sua voz lhe soprou uma coisa que na hora não podia entender de todo, mas que era uma iluminação e um escândalo da mente infantil : Nossas idéias.
Soou misterioso, mas sentiu uma cócegazinha na barriga... não sabia o que era mas era bom. Novo sopro: criança pode ter idéia, nossas idéias ...
Como seria o nome dela, a dona daquela voz?
Mal sabia que a encontraria ainda tantas vezes, sonho acalentado de muitos.
Sonhou também, ali criança naquela primeira visão; e sonhava agora, homem feito, mesmo quando ela lhe era tirada das mãos...
O nome da moça era Democracia, e escolhera a Escola como primeiro lugar pra morar.
* * *
Hoje aquele dia era um lampejo frouxo de memória que se esvaía rapidamente, mas que lhe assaltava recorrente, como quem reafirma e reforça e repete a tabuada ou um provérbio que quer fixar: era importante.
Aquele flash, mesmo hoje tão distante, se autoafirmava como eixo e pilar, como pedra sólida do que viria a ser e de como viria a ver...
*
Estava na sala de aula, a classe de alfabetização.
Nas paredes o colorido de um ano inteiro a conhecer a palavra e seu universo, os personagens da Casinha Feliz a convidar para a dança das letras.
Era uma escola freireana, graças a Deus.
Tinham, coletivamente, escrito um livro, cada coleguinha com uma história e um desenho. Estavam no fim do processo e chegara a hora de dar um nome ao livro, ia começar a votação. A professora conduzia o momento com atenção e cuidado: escrevia as sugestões de todos no quadro à giz.
Ouviu os colegas sugerirem vários títulos e achou vários bonitos.
Não lhe ocorria nenhum, mas de repente se ouviu dizer : "Nossas Idéias", e já era ela ali surgindo.
Na hora do voto foi ficando mais e mais surpreso quando, pouco a pouco, os colegas acolheram aquela expressão, e aquele virou o nome do livro no fim.
Parecia que estavam sendo todos atravessados por um comichão, ele pelo menos estava.
Enquanto a professora colocava cada tracinho ao lado do título, cada um um voto, ela foi lhe aparecendo. Ganhou forma, textura, rosto e voz. Suas mãos delicadas lhe abriram a primeira porta.
Sua voz lhe soprou uma coisa que na hora não podia entender de todo, mas que era uma iluminação e um escândalo da mente infantil : Nossas idéias.
Soou misterioso, mas sentiu uma cócegazinha na barriga... não sabia o que era mas era bom. Novo sopro: criança pode ter idéia, nossas idéias ...
Como seria o nome dela, a dona daquela voz?
Mal sabia que a encontraria ainda tantas vezes, sonho acalentado de muitos.
Sonhou também, ali criança naquela primeira visão; e sonhava agora, homem feito, mesmo quando ela lhe era tirada das mãos...
O nome da moça era Democracia, e escolhera a Escola como primeiro lugar pra morar.
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