terça-feira, 22 de outubro de 2019

Fadiga

Estou cansado das minhas palavras.
Cansado de ouví-las flutuar da minha boca e tocar seus ouvidos em vão.
Cansado de tecer as teias dos versos para neles captar alguma beleza repetida que você cansou de ver.

Para que servem os seus olhos?
Não é o mesmo o som que chega aos seus ouvidos?
Que janela escolheu para se ver?

Me ouço desfiando a mesma trama, sobre a mesma lógica e sob o mesmo céu, e antes que eu termine a primeira frase, como quem conhece o futuro, já me prevejo tristemente arrependido pela decisão de separar os lábios e esboçar algum som.

Eu devia ser silêncio.
Mais sábio, mais tenro.
Sustentar os ares do mistério didaticamente.

Retirar os óculos do rosto, suspirar e fingir que desisto, que entendo.
Deixar as bobagens a ver navios, devidamente sem resposta.
Me colocar em seu lugar, imaginar todas as causas, causos e acasos que lhe produziram e que te puseram pra olhar a vida daí.

Cascavilhar alguma última paciência, sustentar a face calma.
Sorrir e acenar.
Piscar lentamente os olhos e balançar a cabeça num sorriso amarelo.

Deixar passar a piada e a vida.
Deixar que ela passe em cima de você.
Deixar que a sua cara se espatife na primeira parede e que os estilhaços pontiagudos da sua língua atinjam em cheio o seu pé.

A dor então virá pra criar uma fresta na medida exata da luz que precisa entrar.
Enquanto faz careta e pula num pé só procurando alívio, descobrirá as sombras de dentro. Se assombrará com as feiúras que guardou e se sentirá pequeno, inacabado.

Com a dor, virá espaço para abrigar o mundo inteiro em amor.   
E eu não terei mais que me cansar.

*


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