quinta-feira, 16 de abril de 2020

O não ter

É curioso este estado de não ter que.
Os dias me atravessam sem que eu os atravesse, escorrem por cima de mim.
Tudo assim suspenso no ar e estruturado pelo grande e invisível ponto de interrogação.

Não tenho que acordar cedo, então não tenho que ir logo dormir.
Não tenho que sair, então não tenho que me arrumar para.
Não tenho que parecer feliz, e aí me parece que posso ser triste.
Como sempre fui, de quando em vez.

Mas a coisa mais curiosa são as contradições que brotam pela ausência de ter que.

Não tenho que cuidar do jardim, e lá estou eu cuidando dele todos os dias.
Não tenho a obrigação de ler milhões de livros, e eis-me aqui num período de tanta leitura que lembra minha adolescência.
Tenho todo o tempo que eu quisesse para flutuar nas redes sociais, mas não as quero, e flutuo em mim.

Quero estar invisível no meu casulo. Crescendo por dentro sem pressa de romper.
Ignorando de propósito a imagem feia e a gosma que possa ser visível de um processo que é invisível e meu. Mas que também é de tantos outros, é do mundo.
Agora podemos todos hibernar.

O que de sólido surgiu no meio do não ter que, é que me parece agora haver algum tempo para ser. Adoeço ou adolesço?
Ou adormeço?

*

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