Tenho gastado tantas horas a flutuar em mim mesma que abriu-se em mim um buraco no meio do estômago. Acordei e ele estava lá, o estrago feito e uma dor que me queimava - como se a menina de dentro tivesse tido a brilhante ideia de acender uma fogueira pra afastar o tédio e a escuridão a que lhe submeti. Ora como se.
O fogo cresceu, espalhou, e me fez saber o que é sentir a palavra dor na sua versão encarnada, invadindo todos os espaços e arrancando a raiz do pensamento.
Por alguns minutos, vivi a palavra e ela habitou em mim, com suas três letras afiadas:
dor. dor. dor.
Passado o susto e reestabelecida a pressão sanguínea, o fato que restou foi o de que agora há uma saída para a clausura da menina.
De lá ela vê o céu, se espreme toda pela fresta e sai pra passear.
Me olha como se nada tivesse feito e sem sombra sequer de culpa.
Anda feliz da vida e até planeja transformar o buraco que fez em mim num jardim de inverno.
Quanto a mim, tomo omeprazol e como brócolis como se não houvesse amanhã.
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