segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

Sobre domingos e ter tinta sobrando

É Dezembro e choveu. 
A cajazeira começou a brotar folhinhas cor de verde limão. 
E eu, como tinha tinta, pintei a janela da mesma cor . 
Pois sim. 

Tenho que registrar que me fiz ridiculamente feliz em misturar as cores e sacolejar a lata de tinta até encontrar o tom certo. 
Achei. 
A-chei. 
Fiquei numa alegria incontrolável e já era domingo e mais de oito da noite, mas eu já era causa perdida mesmo e pintei até tarde, até terminar não só a janela mas também a porta de entrada. 
Depois pensei por uns minutos se o verde limão não era muito estímulo e se com aquela energia toda eu ira um dia dormir. 
Será que era isso mesmo? 
Tarde demais. 
Dormi. 
Quando amanheceu, com a luz do dia, abri a janela e notei que era isso mesmo. 

Pois me dá um comichão engraçado e um sorriso monalísico pensar que pintei tudo de uma cor tão neon. 
Eu que adoro beges e terrosos. 

Mas agora é como se a cajazeira estivesse aqui, plantada no meio da minha casa. 
Ela vai e vem transportada na luz do verde limão.
Entra na minha casa e dá bom dia no café da manhã, me deseja um trabalho ótimo e me saúda na volta, já menos verde brilhante e já meio envolta nas sombras do fim da tarde.

Pois seja bem vinda minha amiga. 
Vá ficando sempre a vontade. 
E sente aqui que já vou passar o café.

* * *

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

Fundamentos

Rebrilhar do sol 
luz na lagoa
Verde e azul 
e por sobre a ave que voa 

Deslizar de lado e se sentir lá
na luz e na garça
em cada gota e no ar 

Querer a coragem do peixe
Que sem saber das correntes
Recomeça o atravessar 

Ensaiar a bravura das nuvens:
chover em névoa em chuva
Dissolver o medo e sumir no mar

É cedo da quinta-feira. Chove e eu desço do carro meio longe da entrada pra poder tomar um pouquinho de banho de chuva. Inicio pois o dia com uma ideia de experimento: 

Saber-se terra 
e mesmo assim 
querer se lançar 
às águas.



* * *


quarta-feira, 20 de novembro de 2024

O outro pólo

Eu não tenho calma para dar às horas
Eu não tenho cara de quem demora
Eu tenho um punhal
Que rasga no tecido do tempo um portal
Que abre a trilha para as outras dimensões 
Que não teme o frio das solidões
Eu não quero esperar do tempo um presente
Eu quero ser eu quem presente está 
Desfazendo as loucuras do nosso tempo com a sinceridade de quem aberto está
Sereno 
Sensível
Matável
Abrível 
Acessível 
Encontrável 
Vivível


*

Giz

Difícil é desaprender as mãos habituadas ao teu corpo
As rotas dos tremores e arrepios já tão traçadas 
Das alegrias úmidas 
Dos suores abundantes
Das risadas conjuntas 
Da leveza do abraço e do perfume envolvente 
Do olhar sério e brincante de quem muito ama mas finge esquecer
Faz passatempo e dribla o próprio choro em mais um riso descontraído
Brinca que vai hoje abrir um vinho e colocar um brega antigo
Lamentar e adorar o tempo que tivemos 
Pouco 
Mas felizmente lindo
sem nenhuma queixa 

Quero te guardar leve
Asa de passarinho 
Semente de pajeú 
Pipa 
Riso de criança 
Compasso do reggae 

Tua condução é um vento que aflora minha fé no amor para além do a dois 
Para a calma e para a dança 
Para a esperança 

Ps.:
Amores de giz 
Se fazem lindos
E somem no ar



* * *


["eu desço dessa solidão e espalho coisas sobre o chão de giz"]

sábado, 9 de novembro de 2024

Membrana

Tenho o riso e o choro frouxos.
Faltaram parafusos e os sensores na pele vieram em excesso.  

Tudo que vem de fora atravessa e estrala aqui como se já viesse de dentro. 
O ser em rede fica um pouco mais evidente e mais fácil de captar.

O difícil mesmo é ver q a membrana tá ali. 
Mas ela tá. 

Frouxa que seja, transporte ativo ou passivo acontecendo a toda hora e a todo vapor na relação com tudo, em se perceber em tudo, em ser parte do todo. 
Mas ainda, ser. 


*

Quase

Coleciono amores não realizados numa sacola transparente.
Quase encontros. 
Ventos que sopraram tão de leve que nem marca deixaram.
Nem volume ocuparam na sacola.
Mas estão lá.
São apenas sopro que move um meio sorriso ou outro, que riscam o céu da lembrança feito cometa breve, centelha de luz que se vai. 
Suspiro. 
Ideia passageira, rememoração.
Casa secreta de histórias que se desenrolaram numa dimensão outra, num mundo paralelo.
Portal da coincidência dos quase-destino. 
Encontro de mundos-quase. 
Pilha de dobras no espaço-tempo e buracos que a agulha quase perfurou. 
Quase. 
Pois sim. 
Acho bonita a palavra quase. 

Acho que um monte de gente já falou sobre isso de maneiras diferentes, com alívio ou com frustração. 
Quase. 
A partida de jogo que quase dá a vitória do time favorito.
O voo que quase deu pra pegar.
A meta que quase deu pra bater. 
O projeto que quase dava certo mas foi pra gaveta. 

Pois pensei agora que antes do quase e com o quase tem um universo tão denso de coisas que acontecem que a gente até  que podia ser mais generoso um pouquinho com o quase e saber que nele, ali, já tem tanta beleza que já basta. 
Tanta energia de vida, tanta pulsão, tanto trabalho e tanto desejo.
Tanto movimento. 

Pois sim.
O quase já é. 

E não é uma palavra bonita pra dizer assim letra por letra? 
Q u a s e ?



* * *



quarta-feira, 2 de outubro de 2024

Ela

Ela
Onça luminosa 
atravessando a vidraça
Olhos coloridos 
Luzindo cor e fumaça
Passa suave 
Passo silencioso 

E ruge na sua cara 

Descortinando 
os altares do medo
Derrubando pelo chão 
a pilha de temores 
Tudo desfaz em cores 
Incide em toda 
e qualquer fresta
Com seus rigores 

Seus desejos? 

Contrastar
Contrapor
Atravessar 
Transmutar
Bagunçar 
Revirar 

Salta do sol para os olhos 
E pisca nas sombras 


Venha dançar, minha fera
Entre todos os cacos 
Entre todas as poeiras 
e por sobre as pilhas 
de coisas velhas esquecidas 

Onça divina, de luz pintada: vinde, 
"Transformai as velhas formas do viver". 

* * *

[sobre a força divina que recria a vida 
sobre chegar em casa de novo
e de novo, não ter morrido de avião, rs]


quarta-feira, 11 de setembro de 2024

Medo

O medo tudo para
Tudo repara
Coleta do caos uma apára

Encontra na sombra uma amarra
Tece uma teia que agarra 
Oculta qualquer jóia rara 

Impede a limpeza da fala
Engasga a garganta na marra 
Atravanca, cancela a farra 

Rasga no meio a ternura
Protege a inércia mais dura
Desconfia da arte mais pura

Te leva na linha da loucura
Subtrai qualquer fé na candura


*



[ Sobre medo de avião e de ter sido tão feliz a ponto de achar que logo em seguida só se pode morrer de avião]

terça-feira, 13 de agosto de 2024

Pantera

Não estamos à mesa 
para que venham os talheres de prata 
para que venham as bandejas 
para que venham as taças de cristal 

E num banquete plácido 
nos devorem 
enquanto limpam nossos fluidos do canto da boca com guardanapos bordados
Harmonizadas com vinho rosé 
Enquanto bêbadas acreditamos estar plenamente satisfeitas num banquete que nos 
Desossa
Dessora 
Disseca 
Resseca 

Nós, fontes de tantas águas 

Uma pantera de olhos verdes 
hoje me disse 
Case, minha filha
É o que as filhas de Jeová fazem de mais certo na vida
A pantera, no entanto, 
Nos seus 77 anos bem vividos 
Teve dois filhos lindos
Vários amores
Muitos banhos de rio e de açude 
E passeios ao sol :
Nenhum marido 

A senhora é casada? 

Seus dois olhos riram 
e a gargalhada foi alta 
quando respondeu :
Graças a Deus, não.


* * *

 
( Sim, essa história é mais ou menos real e se mistura com uma pintura da carol burgo que me deixou impressionada por ter aparentemente a ver com uma conversa maravilhosa que tive na fila do posto de saúde no mesmo dia . 
a pintura: https://www.instagram.com/p/C-nizh_PDXR/?igsh=cHV0ZWs5c2Fwc2x0 ) 

segunda-feira, 24 de junho de 2024

Inquietação

Fome
Fome da própria
Fome 

Fome de vida
Fome de ver da de
Fome de no vida de 

Vida de verdade
In vade o centro
Da von ta de 

E rasga o cerne 
Da vai da de 
Reelabora a
Par ti tu ra 

Desfaz o 
Me do 
da verdade 

Iluminura

Me inaugura
Em ser de novo 
Li ber da de


*  *  *



Às fomes que despedaçaram aquilo que fui 
(e àquelas que ainda me despedaçarão)




sexta-feira, 17 de maio de 2024

Âncora

De submersas 

palavras 

nas entranhas 

do que disse 


Submarino 

deslizante 

no oceano 

da mesmice


Ao súbito soprar na superfície


* * *

domingo, 12 de maio de 2024

Festa

A varanda da casa não via uma cena daquelas à muito tempo. 
Talvez nunca tivesse visto. 
A mangueira, habituada à festa tímida dos cactos e suculentas que agradeciam solenes pela umidade esporádica, não imaginava que o dia era da festa de outra espécie, a humana. 
Os humanos mesmo não precisavam de água por fora, não era lá uma questão de vida ou morte, de desidratação. 

Era uma questão de pele. 
Era a festa da pele. 

Fazia calor e era até fácil ter aquela ideia quando os sentidos não estão disciplinados à vida comportada. 
Quando se deixa pra lá o que convêm. 

Pois sim. 

A proposta foi a de tomarem banho, juntos, de sol e de luz, na varanda, e de mangueira. E como eram jovens e como era domingo, e como domingo fosse o dia do sim, foram.

Arco íris se desprendiam das gotas no ar e cachoeiras escorriam da pele. 
Os poros acordavam e a vida parecia muito viva. 
O calor ainda fazia correr um arrupeio nas peles, que agradeciam a carícia das águas. 
Pois sim. 
Banho de mangueira no jardim. 
Festa de humanidades, ritual dos agoras. 
E convite e primórdios das outras festas de depois, começada também nos poros, mas feita da linguagem de outras águas. 

sábado, 16 de março de 2024

Ora-pro-nobis

Quase nunca visto laranja
por fora
mas sempre por dentro

Nas cores das flores
no cobre do sol
nos flamboyants

Nas paredes cor de terra
nos crepúsculos
no tijolo de barro cru

Nas telhas da minha casa
atravessadas de luz,
nos tapetes

No mamão suculento
do café da manhã
nas tangerinas

Por dentro,
laranja é a cor
mais rente

latente
ardente
mais quente


* * *

sábado, 2 de março de 2024

Silêncio

 De vez em quando me vem um cansaço imenso de ser um ser que fala. 

As palavras parecem todas vazias de significado, a comunicação verbal um aparato inútil. Vejo os seres humanos ao meu redor, e eu mesma, articulando a boca sem parar e emitindo sons que nada dizem.

 Estamos perdidos uns dos outros. 

Tão ansiosos, tão cheios de porvir e esvaziados de presença. Parece que a gente se dilui na aceleração do tempo capitalista, viramos um borrão na tela, uma ideia fugaz, e mesmo ali diante do outro não passamos de uma rolada de feed. 

Radicalmente, esquecemos da gente mesmo. Parece que a gente flutua em tanta possibilidade que não é capaz de materializar nenhuma. 

Será que é isso, o futuro? Projeções mentais invisíveis sobre uma realidade cinza? 

Feeds coloridos e retinas incapazes de ver as cores reais? 

Gramas vizinhas sempre tão melhores que deixam o meu próprio jardim um lugar seco, desmerecido de cuidado e umidade? 

Tantas palavras me levam sempre a desejar o silêncio. 

Ah. 

Um longo e doce período de nada dizer.