No dia seguinte, a manhã estava muda.
Assim como as ruas, os carros, as bocas.
O ar, antes leve e colorido, parecia denso, cinza.
O ônibus se arrastava lenta e pesadamente, concordando que não havia motivos para pressa...
Correr para quê?
Mover-se para onde?
O peso de 56 milhões de dedos recaía sobre todas as cabeças, roubava o oxigênio das veias e o brilho dos olhares.
Rostos apáticos, pasmados, desolados.
Corações exaustos da luta.
Forças esvaídas numa guerra perdida muito antes da batalha começar.
Muitos vestíamos preto inconscientemente.
Disposição nenhuma havia para tocar no assunto.
As pessoas eram todas um mar de corpos desmaiados e olhares vageando no espaço vazio.
Era tão estranho que parecia não ser real.
Era um NÃO em letras garrafais.
Era tão duro e grave que fingíamos que tinha sido só um sonho ruim.
Tudo era susto.
Tudo era luto.
Éramos todos silêncio.
sexta-feira, 30 de novembro de 2018
quarta-feira, 2 de maio de 2018
Pitomba
Abro a geladeira.
Na minha frente, enxergo o potinho que guarda as magníficas esferinhas marrom-douradas.
Mergulho os dedos e encho a mão.
Uma ideia: levar pro quarto e completar a experiência com música e a visão do céu.
Executo o plano: me deito entre os lençóis fofinhos.
Seguro a bolinha número um entre o polegar e o indicador.
Observo por um segundo e ponho entre os dentes.
Pressiono.
O barulhinho que a casca cor de canela faz ao romper-se é um ploc carregado de magia e da leveza do brincar...
Som de infância.
Os acordes da música nos fones de ouvido completam a experiência, criando quase um mundo paralelo para o momento, uma cena de filme.
O fato de a frutinha estar gelada torna tudo uma religião.
A alma gargalha.
Um burburinho nas entranhas agradece aquele souvenir das tardes na casa da avó.
Pego as duas metades da casca, uma em cada mão, sinto o cheirinho ácido que se espalha no ar...
Dou aquela lambidinha básica na parte da casca que não guarda a polpa, e em seguida sugo a surpresinha gelada.
A língua estala de alegria com a batidinha de leve que decorre da sucção.
A bolinha suculenta passeia entre os dentes e é raspada, espremida e chupada até só restar o caroço: limpo, liso e seco.
Pausa pra olhar o caroço.
Pausa pra cuspir.
E pego a bolinha número dois.
Ploc!
Na minha frente, enxergo o potinho que guarda as magníficas esferinhas marrom-douradas.
Mergulho os dedos e encho a mão.
Uma ideia: levar pro quarto e completar a experiência com música e a visão do céu.
Executo o plano: me deito entre os lençóis fofinhos.
Seguro a bolinha número um entre o polegar e o indicador.
Observo por um segundo e ponho entre os dentes.
Pressiono.
O barulhinho que a casca cor de canela faz ao romper-se é um ploc carregado de magia e da leveza do brincar...
Som de infância.
Os acordes da música nos fones de ouvido completam a experiência, criando quase um mundo paralelo para o momento, uma cena de filme.
O fato de a frutinha estar gelada torna tudo uma religião.
A alma gargalha.
Um burburinho nas entranhas agradece aquele souvenir das tardes na casa da avó.
Pego as duas metades da casca, uma em cada mão, sinto o cheirinho ácido que se espalha no ar...
Dou aquela lambidinha básica na parte da casca que não guarda a polpa, e em seguida sugo a surpresinha gelada.
A língua estala de alegria com a batidinha de leve que decorre da sucção.
A bolinha suculenta passeia entre os dentes e é raspada, espremida e chupada até só restar o caroço: limpo, liso e seco.
Pausa pra olhar o caroço.
Pausa pra cuspir.
E pego a bolinha número dois.
Ploc!
segunda-feira, 2 de outubro de 2017
Sobre O Amor
Te vejo.
Trazes a luz aos meus olhos cansados
Me devolves a cor, o tato
Me fazes sentir a brisa outra vez
És água viva que desperta meus sentidos
teu orvalho em minha retina
me revela tons que só a alma vê:
Te vejo.
Me ensinas a Graça, teu favor em mim
descreve mistérios que me contas
sem palavras
Teus sinais estão aqui
ao alcance de todos os olhos que vêem
audíveis a qualquer ser que ouça:
Te vejo.
Como podem os meus olhos se fecharem nas sombras
e meu coração recusar-se a ver teu amor?
Como pode ainda minha visão enturvecer
e não mais se maravilhar com a beleza do viver?
Quando penso que nada mais sinto
e nem sei o que sou
teu bálsamo me envolve
sou curado em meio a dor
Me ensinas a ver
e Te vejo.
Me fazes emergir de mim
e Te vejo.
Me devolves os sentidos e O sentido
e Te vejo.
O que És excede todo entendimento:
Te olho, e Te vejo.
Trazes a luz aos meus olhos cansados
Me devolves a cor, o tato
Me fazes sentir a brisa outra vez
És água viva que desperta meus sentidos
teu orvalho em minha retina
me revela tons que só a alma vê:
Te vejo.
Me ensinas a Graça, teu favor em mim
descreve mistérios que me contas
sem palavras
Teus sinais estão aqui
ao alcance de todos os olhos que vêem
audíveis a qualquer ser que ouça:
Te vejo.
Como podem os meus olhos se fecharem nas sombras
e meu coração recusar-se a ver teu amor?
Como pode ainda minha visão enturvecer
e não mais se maravilhar com a beleza do viver?
Quando penso que nada mais sinto
e nem sei o que sou
teu bálsamo me envolve
sou curado em meio a dor
Me ensinas a ver
e Te vejo.
Me fazes emergir de mim
e Te vejo.
Me devolves os sentidos e O sentido
e Te vejo.
O que És excede todo entendimento:
Te olho, e Te vejo.
sexta-feira, 15 de agosto de 2014
Respiro
Hoje eu abri a janela do quarto pra aliviar o calorão da tarde e (quem sabe) aliviar também a mente, tão ocupada dos trabalhos, textos, e resenhas de sempre.
Foi só abrir que o ventinho bateu no rosto com força e gosto, arrancando dos meus pulmões um suspiro grandão, desses que a gente só dá quando a pele já sentiu que o ar é puro e fresquinho, nesses raros lugares em que a cidade resolveu ainda não se vender ao concreto, sabe?
Foi aí que eu vi que a árvore que a gente plantou no quintal há uns meses deu um salto só, e já tá passando meio metro do varal de roupa!
As folhinhas novas tremulando no vento pareciam querer fazer sentir como é bom sentir o vento, a natureza...
Foi aí que eu vi umas andorinhas bamboleando agitadas no céu, e o som de uns outros passarinhos se arrumando pra dormir.
Mais ao longe, uns urubus planando compriiido, leves e plenos e tão alto que viravam só pontinhos pretos, miúdos no azul clarinho de céu sem sol.
As nuvens pairando, mais acima, transmitiam aquele sentimento de plenitude que só mesmo as coisas divinas, intocadas pelo dedo do homem são capazes de mostrar.
Cores perfeitas, harmônicas. E sem precisar das regrinhas de combinação que os artistas visuais utilizam.
"Pela janela do quarto, pela tela, pela janela", escapou um sorriso, sem controle.
E no meio da rotina abafada, um respiro.
A brisa fresquinha da poesia.
*
Foi só abrir que o ventinho bateu no rosto com força e gosto, arrancando dos meus pulmões um suspiro grandão, desses que a gente só dá quando a pele já sentiu que o ar é puro e fresquinho, nesses raros lugares em que a cidade resolveu ainda não se vender ao concreto, sabe?
Foi aí que eu vi que a árvore que a gente plantou no quintal há uns meses deu um salto só, e já tá passando meio metro do varal de roupa!
As folhinhas novas tremulando no vento pareciam querer fazer sentir como é bom sentir o vento, a natureza...
Foi aí que eu vi umas andorinhas bamboleando agitadas no céu, e o som de uns outros passarinhos se arrumando pra dormir.
Mais ao longe, uns urubus planando compriiido, leves e plenos e tão alto que viravam só pontinhos pretos, miúdos no azul clarinho de céu sem sol.
As nuvens pairando, mais acima, transmitiam aquele sentimento de plenitude que só mesmo as coisas divinas, intocadas pelo dedo do homem são capazes de mostrar.
Cores perfeitas, harmônicas. E sem precisar das regrinhas de combinação que os artistas visuais utilizam.
"Pela janela do quarto, pela tela, pela janela", escapou um sorriso, sem controle.
E no meio da rotina abafada, um respiro.
A brisa fresquinha da poesia.
*
segunda-feira, 22 de julho de 2013
Depois das onze
A noite caiu e você já dormiu.
O quê que eu vou fazer agora?
Eu faço um café e tomo de colher
Mas já vi que essa noite não passa.
O meu celular
Já pirou de vez
O autofalante quer a sua voz
Então diz aí, o que é que você fez pra eu derreter assim,
falando a sós?
Eu viciei no teu timbre, essa atmosfera musical...
Acostumei com a tua voz.
A tua ausência não é natural...
quinta-feira, 30 de maio de 2013
Pausa pra poesia
Eu só queria dizer de um jeito menos clichê que tudo me lembra você.
Até preferia que o verso não rimasse,
mas se a rima não vingasse
talvez meu compasso desandasse
na batida do teu ser
Ah, como é que pode ser?
viver você é ver, sentir,
é respirar pura poesia
E mesmo estando longe,
só lembrar de ti refaz
um pedaço da minha alegria
O quê que eu posso dizer pra descrever o bem que me faz a tua companhia?
Bem que eu queria descobrir
nesse teu jeito de rir
a tal receita que me contagia
Você me faz escrever mil abobrinhas de amor -
E como é que fica minha aversão à flores e corações?
E essa história de pensar um futuro, de querer rodar o mundo com você
- só
por estar com você -
Parou para pensar que nada disso faz sentido e que tudo isso meio que
foge à razão?
Às vezes demora pra perceber que um mundo tão racional é comandado
- de
quando em sempre -
pelo coração...
segunda-feira, 8 de abril de 2013
Reticências
Um dia irei escrever
algo feito uma canção
que ressoe feito um samba
e que leve no refrão
entrelinhas, entre letras
um dicionário do olhar,
um tradutor da emoção...
Há de ser inconfundível,
desde o primeiro acorde que formar
Há de beijar, a cada pausa
o ouvido de quem escutar...
Há de ser daquele tipo que só se ouve sem pressa,
que é pra tua alma travessa em mar de calma navegar...
* * *
algo feito uma canção
que ressoe feito um samba
e que leve no refrão
entrelinhas, entre letras
um dicionário do olhar,
um tradutor da emoção...
Há de ser inconfundível,
desde o primeiro acorde que formar
Há de beijar, a cada pausa
o ouvido de quem escutar...
Há de ser daquele tipo que só se ouve sem pressa,
que é pra tua alma travessa em mar de calma navegar...
* * *
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