quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Chuva

Sentimos a sua falta.
Eu, os galhos ressequidos do Ipê, cada fissura dos fundos de vale e cada folha.
Estávamos numa saudade tão imensa de te ver que parecíamos não lembrar o que faltava em nós.
Adormecidos, nos arrastávamos para o futuro sem pressa, suportando a poeira e o ar ressequido como quem já não se admira de nada.

Nos inundava o vazio, com seus braços infinitos.

As janelas dos carros, das casas e dos olhos já não podiam ser de cristal e luz quando a sua ausência dava lugar à vista embaçada de pó.
O vazio era imenso!
Mas você é tão maior!

Ouço o rugir do encontro das nuvens: ferozes e iluminadas, rasgando o céu gloriosas são anunciação da sua chegada.
Como um som que devora o mundo inteiro, você se aproxima depressa, invade e acorda os ouvidos como mais ninguém é capaz de fazer.
Todo o meu corpo está alerta, te reconhece e se vê em suas gotas.
Ouço o festival das milhões de gotas caindo sobre as folhas, e finalmente você está aqui.

Meus ouvidos agora são a música composta pelas bicas, vozes de um coral numeroso vibrando no ar, e meus olhos se fecham para ouvir.
Todas as superfícies que você toca se tornam instrumentos, e ressoam a seu modo a alegria da sua chegada... 
Sobre as telhas de barro soa o burburinho que dá suporte às melodias... às quedas d'água que cantam respingos nas poças, aos lençóis que escorrem sobre as paredes, ao fio de água que escorre sobre um vaso de vidro e é como a flauta doce a decorar o ar...

Abro meus olhos agora nítidos, e os pássaros cantam, como quem te vê.


*

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Letras

Escrever é como querer fixar no papel os pigmentos voláteis da experiência, como tentar segurar no ar o perfume fugaz do instante eterno.
É desespero em capturar e reter a beleza nas mãos, essa criatura volúvel que vez ou outra concede o ar de sua graça aos nossos sentidos.
É mastigar e reprocessar o vivido sob outra ótica, reinventar a cena em outras paletas e poder escolher o foco e o contraste.

É lugar propício para matizar a dor e tornar bela a saudade.

A letra no papel é exata em criar entrelinhas e reticências, em dar espaço a tudo que vier com os olhos que a leem, em embalar juntos a concretude e o vir a ser na mesma dança.
Em justapor universos paralelos múltiplos e maravilhosos e em cunhar nas palavras um portal para revisitar as memórias, romper as dimensões.
Enquanto espalho as letras, sinto-me espalhar na eternidade.

*

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Teia

Se exibe na medida em que se ilude.
Se engana tanto quanto pensa que engana.
As formas e fôrmas ilusórias se confundem com o espelho :
não pode saber o que é imagem quando se fez objeto.

Os contornos da realidade se perdem no ar em mais um clique, em mais um minuto de veneração à imagem do desconhecido. De vários desconhecidos, já que a página nunca chega ao fim.

A teia não pergunta sobre a vontade de continuar em transe : não há respiro nem pausa.

Enquanto aspira profundos tragos das vidas alheias, abandona a sua própria.
Ou cria uma outra, paralela e em cores mais vivas, com enquadramento melhor...
No fim do dia, se ambas as platéias tiverem sido convencidas, terá ganho a noite.
Aos poucos nos deixamos, perdemos a alma.

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quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Lua

Escrevo para traduzir em palavras a loucura de dentro.
Teço a teia dos versos para nela deixar registros de que o caos também pode ser são.

As conexões a princípio parecem esparsas e aleatórias, as palavras soltas, vãs.
Mas continuada a trabalheira, quando os contornos ganham definição, e os versos ganham pares, e quando salpicados de rimas e pausas e ritmo, lá estou eu, inteiro.

Às vezes escancarado, numa denúncia auto-pronunciada de minha miséria e fragilidade, das minhas inconstâncias, devaneios e desvarios. Às vezes sutilmente oculto numa estória de outrem. Às vezes falando de tristeza e feiura, às vezes falando da beleza do mar. Ou da lua.

Escrevo para me lembrar de quem sou ou quem fui à cinco minutos ou à cinquenta anos, para ter um jeito de me dizer que os caminhos percorridos tinham beleza e cor, e que as escolhas foram quase todas feitas na lucidez do amor, este livre espírito em que habito.

Escrevo às vezes em desespero, e enquanto os garranchos rápidos se organizam e tomam forma e as sílabas encontram seus lugares, me encontro. Esqueço a urgência dos dias, e me lembro que é mais urgente sentir o sabor de cada um deles.

Enquanto escrevo me lembro que tenho direito de olhar o céu, de me encantar com a lua cheia e de me deixar enluarar e nadar na luz dourada. De suspirar enquanto olho fixamente para ela, como se olhasse em seus olhos. Me lembro que é permitido subir num banquinho ou num cavalete e ficar na ponta do pé só pra ver ela nascer...

A lua hoje, deitada no azul
pontilhou de luz o meu chão
abriu as portas da emoção
despertou do sono o coração

Por entre as folhas e galhos e nuvens
sorriu para mim num flerte e piscou :
eu vi seus cílios de cetim
soprarem um beijo pra mim


*

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Maré

Não posso ser transparente, o rio de águas claras a correr sobre as pedras.
Minhas águas são turvas e fundas, e obscuras.
Tenho camadas.

Preciso me guardar pra mim um pouquinho, como a Monalisa e seu segredo sorridente:
Cores sóbrias e mãos sobrepostas e uma mensagem encoberta.

Nas curvas sombrias, alguma pedra onde eu possa esconder um peixe ou uma concha,
onde me guardo e aguardo.
Sob o cascalho e os seixos, o inesperado.

Gosto de ter um canto secreto para guardar um mistério que nem mesmo sei,
mas que sempre invento e reservo como sendo tudo de mais precioso em mim.

Tenho desejos.
Ei, psiu!
Tenho desejos.
Mas não faça alarde!

Me parece um tanto esquisito dizê-los, pois escapam de mim fortuitos,
donos de si e flutuantes.
E vão-se embora.
Sempre voam e vão.

Somem em minhas espumas.

Não posso ser tão transparente, nem tão clárida, tenho que ser louca.
Em minha loucura tudo cabe em mim.

Bravio que sou, até o que não me cabe de algum jeito me atravessa,
de algum jeito me conserta, a seu jeito me transforma.


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quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Mau humor

Ácido e náusea feitos de tédio.
Composto de notas dissonantes e todos os sons mais feios.
É de matéria densa e pegajosa : se engancha nas tripas.

Contorce o estômago e corrói o fígado.
Desunera o sangue e amarela os olhos.
Deixa a pele sebenta.
Fede.

Azeda o leite e arruína o arroz.
Enverga o esqueleto.
Escorre lento sobre tudo e respinga ao redor suas gotas indesejadas.

É sólido mas se espalha, rastejante.

Enquanto seus tentáculos se expandem e se contraem, tenho ânsia de vômito.
O danado ainda ronrona, como se merecesse carinho, e ai de mim se não o satisfaço.
Toco o invólucro gelatinoso e em lenta agonia deslizo os dedos.
O ácido estomacal sobe involuntariamente à boca : engulo.

A teia agora me enlaça e adere ao meu corpo, e já não podemos nos dissociar.
Tomo a fera em meus braços e a oculto debaixo da blusa:
prefiro que não lhe vejam os dentes, pois parecem muito com os meus.


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sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Azul - brilhante

É tempo da estiagem.
Tempo das reservas.

As lágrimas permanecem dentro para não gastar a água e a vida estocadas.
Por fora a superfície brilha, com sua blindagem de cetim intacta:
Foi para agora que teceram em nós a casca espessa.

O que está dentro não deve sair.
Não há do lado de fora nada que deva entrar.

O céu exibe um azul escandaloso e penetrante, e quanto mais a luz se expande e se intensifica, mais caem as folhas e mais se retrai a pupila.
É tanto sol que constrange a pele.

O desfile do astro-rei desgasta e produz dormências.
Empurra para a inevitável nudez dos galhos, para a espera do recomeçar dos ciclos.

Emudece e provoca recolhimento.
Suscita à quietude, à reflexão...
Induz o coma para preservar a vida.

Em dias ressequidos, a luz do sol é desejo de chuva...
Para quem espera a nuvem, o azul-brilhante é a cor da tristeza.


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