segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Códigos

os meus olhos fugidios                            

saltam por entre os teus olhares

p l u m a s

c a m a d a s

d i s f a r c e s

melhor não me observares

que o que eu ainda não te disse 

pode escapar num raio

num átimo

milésimo

que nunca precisastes de muito 

para me decifrares


*

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Ânsia

Teus desejos,
não espalhes ainda na voz.
Guarda-os, devora-os.
Engravida deles.
Gera, paciente, vida a partir -
são semente.
Provê calor e umidade,
luz na medida.
Aguarda até que se abram -
flor da ferida.

*

domingo, 23 de agosto de 2020

Dispersão de sementes

Quando eu virar terra
meus desejos cessarão
toda palavra que erra
vira pó do chão
o poema que escrevo
as folhas cobrirão

quero virar formigas
pulsar nas veias das lagartas
suprir as folhas de seiva
escorrer nas águas dos rios
desaguar no mar

meus pedacinhos virarão
besouros
folhas
novos galhos
sementes...

renasço.


*

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Trilha


Se houverem outras dimensões, e se o tempo-espaço for dobrável, e atravessável, e se meu corpo disso soubesse antes que minha mente pudesse aceitar como verdade, então haveria explicação justificável para a confusão-explosão dos sentidos ao te ver.

Se para o corpo adivinhar o sentir do futuro fosse fácil e lógico, se para o tato o dia do toque estivesse logo ali, ao alcance da sabedoria da pele, eu entenderia o descontrole do termostato e do fluir das águas de meus rios - e lhes daria razão.  

Tenho uma teoria: o desejo é um portal atravessável entre dimensões.

Cada vez que ele surge é uma porta, uma trilha. A cada nova porta, curvas, retas, desvios, recomeços. O desejo é sintoma, propulsão e pólvora.
Explode no corpo como o grito da alma que não pode se locomover sozinha, que percebe os descaminhos antes dos meus olhos. 
Que aponta as mudanças necessárias. 
Que quer me arrastar para uma nova porta.

A porta que vejo agora não é a da minha casa, a porta é você.
Olhando pela fresta dos seus olhos miúdos, vislumbro a dimensão outra que se estenderia se eu te atravessasse.  

Uma ideia: atravessar você. Estremeço.

E adivinho no corpo este poema escrito nos seus braços e mãos.
Em meus braços, em minhas mãos, com minhas mãos.
Me atravesso em você. Imagens, sons e cheiros, memórias criadas.  

Palavras me atingem de raspão.

Explodo.  


* * *

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Ironia

há flores em agosto
a muito custo e meio sem rosto
brotando do desgosto
desenganadas mas de riso exposto
habitam o compasso decomposto


*

terça-feira, 7 de julho de 2020

Faz de conta


garimpo poemas
que me entreguem teu corpo em palavras
que transformem em imagem memórias vagas
que encarnem em mim ideias guardadas

construo fonemas
que decifrem os signos que não vi em teu rosto
que inventem o que o que não vejo, te deixem exposto
que em meus sentidos produzam teu gosto

eu caço palavras
que me falem de curvas que os olhos não percorreram
que em minhas mãos escrevam o que não viveram
que me adivinhem daquilo que não morreram

eu teço as falas
que me arranhem com letras que um dia inventei
que me dissolvam nos olhos em que não morei
que me ponham no abraço que devaneei



*

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Para dizer ao pé do ouvido


sua voz
g r a v e
tece um fio

suave
sugere arrepio
me iça para fora
de meu brio

a textura
d e n s a
me embriaga

invade a nuca
não me larga
me ressoa 
no quadril


*