segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Resolução de ano novo

Vamo dormir,
Minha gente
Que a manhã 
Vem rente

* * *

Visita

Encontrar 
na humanidade
a irmandade
Encontro 
na 
radicalidade
da diferença 

Romper 
a membrana 
do útero meu
Ver-me fruto
da dança 
de muitas crenças 

Ouvir as vozes 
profundas de ser
Som que ecoa 
debaixo de muitas águas 

Crer na doçura
Saber
A voz do silêncio
habita nas casas 

Espírito, espírito
O vento como fogo
Que quebra as ondas fortes
Que faz seguro o porto 

Espírito, espírito
Início, água e corpo
Atento às dores fortes
Me faz olhar o novo 

Espírito, espírito
Quem lembra à vida o gosto
Revira meus caminhos
Me faz mais amplo o voo


* * *

domingo, 1 de janeiro de 2023

Dança

Findados os tempos de sequidão, o querer latente da terra é de se umedecer.

Os ares ásperos de sol que precedem estes quereres deixam as células sensíveis de todo um ecossistema árido mais que atentas - imóveis - e por isso mesmo em ponto de bala. 

A superfície das cascas aguarda ávida uma notícia só, parâmetro do desejo de enverdecer : a primeira chuva. 

É curioso. Os seres habitantes do cenário da seca, tão sóbrios e sábios, resilientes e estratégicos, ríspidos e aparentemente fechados em si, cascas grossas e espinhos, caducifólias e resistentes ao fogo, rainhas e senhoras da sobrevivência, depois de tanto aprenderem a se conter, feito mágica, derretem a dureza do ser no primeiro anúncio do escorrer das gotas. 

E antes disso, preparam em si o desejo de se lançar à trabalheira desgraçada da renovação : rumas e rumas de folhinhas e mini galhos novos, mini coisas brotando em explosão de fragilidade, numa abertura coletiva para de novo voltar a ser origem, criança, mata virgem. Adolescer. 

Depois de meses de se deixar perfurar de luz, do desabar impetuoso do céu sobre o chão, do esmagamento ardente do sol sobre o húmus, depois do consumir das matérias, a água abre espaço e rege a ação oposta. 

A penetração agora é no tecido do céu, vida verdejante contraposta ao azul total, avançando no corpo do ar. 

A mata cresce, devolve a si mesma seu volume, sua forma e sua abundância, empurrando de volta o que encolhera e ganhando espaço dentro de si. 

A vida rasga mata a dentro.

Rompe, desde a raiz , seu silêncio, e de bem dentro engendra a resposta à canção do sol : dança.


* * *

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Passagem

Entrar no mato e ver
Essa alvorada
Seguir o rastro tecer
Sua jornada

Traçar mil milhas 
Com o pé
Nessas cidades
Saber
Não ando de ré
Nem com metade 

* * *

segunda-feira, 14 de novembro de 2022

Refrão

Planta
a semente
Planta, planta
Que é no corpo 
e na dança
Na curva do teu andar 
Cheiro de alfazema

Planta 
A semente 
Canta, canta
Faz do gesto 
Esperança 
Na voz de nenhum lugar
Caminhar no dia


* * *

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

Juazeiro

Como uma floresta que cresceu 
até seu estado máximo de beleza
e cortada, morre 

Como as árvores mais altas não ressurgem, 
depois de extintas, 
no outro dia 

Como Amazônias desertas 
de motosserra e correntes
somem, rendidas 

Como as longínquas chuvas de 100 anos
Como a lentidão dos ciclos da abundância 

Não será para logo a regeneração 

Após a mata derrubada 
não é possível aproveitar 
a sombra das sumaúmas 

O território do ódio 
não nutre de pronto 
as novas árvores desejadas 

Virão antes delas as ervas daninhas
Teimosas, pioneiras
Formação de raízes para o solo duro 

Perfuração
Início
Microvales de penetração das águas
Espera da mudança
Dança de esperança 
Flores que nascem e murcham logo
Ervas do campo 

E nos berçários do novo mundo
Sementes ocultas aguardam anos
Dormem, tranquilas
Até que a terra esteja pronta 

Até que os olhos estejam abertos
Até que as mãos estejam quentes 
e os abraços demorados, pra brotar 

Então nascerá
À sombra do mato cortante
Do capim tiririca
Das arvoretas tortuosas

Nascerão
as novas 
árvores da vida 

Raízes generosas
Invisíveis e intensas
Ramificação infinita 
Conexão subterrânea 

Folhas desavergonhadamente verdes
E frutos timidamente amarelos -
Repletos de arapuás 

Sim, a esperança será um pé de juazeiro. 
E esta, a vida, desenhará nas paisagens áridas 
uma nova bandeira.



* * *

quinta-feira, 18 de agosto de 2022

Canção pra acordar a Terra

O canto do amor que vibra
O canto de amor preenche
O canto do amor expande o ar

É forte e corta rente
Transpassa e transborda a gente
Ligeiro risca a centelha

Atrás do rastro infinito
Acende e acalma o grito 
O facho da luz ateia

Quem gera pólen, semente
Avesso do véu da gente
Detém o fio e a teia

Quem encheu o mar?
Quem traduz o sentido
Guarda no teu olhar
Revira

Quem entrou no mar?
Quem partiu os mistérios
Rasga o céu no ar
Se lança

O canto do amor transcende
É flecha, estrela cadente
Transpassa e costura a Terra

É flecha, punhal pungente
Desfaz e refaz a gente
Espalha o sangue na veia

Quem olhou pro mar?
Quem traduz os sentidos
Rasga o véu de amar
Revira

Quem guardou o mar?
Quem abriu os mistérios
Une céu e ar
Na dança

Se lança?
Revira?
Respira?
Quem sangra?