segunda-feira, 20 de março de 2023

Pressentimento

Não saber. 
Não saber quando
Não saber o que
Não saber quanto 
Não saber se 

Não saber onde
Não saber como
Só saber que 


* * *

terça-feira, 14 de março de 2023

Arranque

Quando é que a dor 
basta no canto? 

Quando é que o encanto
Feito pranto 
Vem como manto

Dissipa o que é tanto
Quebra o quebranto
Inaugura o alento? 

Tanta amargura
Feita em canção
Se torna sustento? 

Perfura ternura 
Na tessitura 
De um lamento? 

Amplia paisagem
Destina a passagem
De um tormento?

Canção estrutura
Acaba a gastura
Desfaz a feiúra
Rasura e mistura 
a minha loucura
Aumenta a espessura
Da envergadura
E até captura
o meu pensamento


* * *

quarta-feira, 8 de março de 2023

Contraste

Às vezes tenho a impressão de que as coisas todas já foram cantadas.
Está tudo dito.
O mundo já manifestou todas as palavras humanas através dos séculos, em canções novas e antigas.
Nos poemas e nas prosas.
Não se inventa mais pólvora nenhuma. 

Está consumado. 

Enquanto deixo essa frase não inédita esfriar, tendo ela acabado de aparecer em mim, meus olhos param numa coisa curiosa:
Uma louva-deus, verde-esperança, em contraste com minha pá de lixo, vermelha-sangue. 
E ela pôs ovos na pá. 
Está pondo ainda. 
As mãos em prece. 
As patinhas de trás arrumam os ovos num aglomerado só, e as da frente limpam o rosto de vez em quando.  

Pois sim. 

As coisas humanas podem estar todas ditas, mas elas não são todas as coisas.


* * *

terça-feira, 7 de março de 2023

(An)danças

Um novo tempo
Tua linguagem
Que se instale
A tua graça 

A tua vida
Força e coragem
É boa nova
Que nos inunda 

Uma esperança
Chuva de graça
A água viva 
mora em casa 

Vê em cada palmo de chão
Corpo olhar expressão
Faz a beleza brotar
Em todo jeito e lugar 

Em cada gesto e no pão
Em cada flor um irmão
Cuida pra vida girar
Tempo de andar o andar

* * *

Útero

Navegar nas ondas da dor
Existir num corpo outrora sólido 
Agora liquefeito no entorno de um ser mais bruto
Muscular
Elástico 
Enlouquecido 

Mais um ser vibrante 
em vermelho-sangue
Protesto da vida
Desejo de multiplicação frustrado 
em esfacelamento 

Endométrio 

Tão fino
Tão nada
Tão rasgante 
Tão rio que atravessa o mundo e deságua em dor 
Tão parante de tudo
Tão primordial 
Tão bisturi
Tão nó 

O refazer dos ciclos
Traz sempre 
A metáfora lógica : 
A maior dor 
É sempre dentro

* * *

sábado, 25 de fevereiro de 2023

Reza

Ensina-me 
a pôr em prática
Dentro desta 
estrutura burocrática
A ética 

Dá-me didática
Para estremecer a estática
Engendrar neste muro frio
fissuras táticas
Estratégicas


***

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Romeu

Preciso, diariamente, sair pra passear com meu cachorro.
Ele que me leva.
Fica na beira do portão, no fim da tarde, até que eu apareça por lá carregando seu passaporte para o portal mágico: a coleira.
E ele fica igualmente feliz todas as vezes e em medida tamanha, que aprendi a também me botar feliz e tranquila a passear com ele pela rua. 
Ali, só há o instante. 
Ele me ensina a olhar de novo e de novo para cada matinho do caminho, me aponta como são preciosos. 
Me pergunto se foi nessa brincadeira que aprendi a gostar de planta que nasce na beira da estrada, que pode levar todo dia uma chuvarada de uréia que não morre. 
Que brota sem precisar de terra adubada ou de muita água, e mesmo assim é capaz de produzir beleza. 
Preciso, como preciso, todo dia olhar para essa serra e lembrar do seu nome - Laíla - e procurar nela os contornos femininos esculpidos pelos deuses. 
Preciso olhar pro resto de sol que emerge por entre os vales ou para as estrelas ou para a lua, pra como o tempo está, pra como a vida apenas é. 
Romeu me ensina a meditar quando no meio do passeio ele atravanca abruptamente e quase me faz cair no chão, por cima dele. 
É preciso estar atenta. 
Sem estar tensionada ou alerta. 
Isso não.
Apenas presente.
Olhar pros matinhos e ver que eles são jardim. Lembrar que essa beleza esquecida também me merece os olhos e os afetos. 
Lembrar que o vento bate no pescoço de um jeito muito humano quando eu amarro o cabelo. 
Lembrar que as coisas tem cheiro e que a mata tem som.
Tem sons. 
Que os sapinhos e os grilos estão lá. 
Que folha de árvore tremulando faz um barulhinho reconstrutor das possibilidades de vida. 
Que as palmeiras, que eu nem gosto tanto assim porque não fazem tanta sombra fazem um trabalho magnífico de recortar o pôr do sol. E de ajuntar maritacas. 
Prestar atenção que as cigarras são várias, e que cada uma diz uma coisa diferente sobre o dia. 
Hoje tem uma ali dizendo que vai chover.

* * *