domingo, 17 de setembro de 2023

Flecha

Quando eu fui
Já era assim
Uma flecha que partiu
Parar não pude
Tarde demais 

Meu movimento 
não é de automóvel
Uniformemente variado
Conectado
Engrenado 

A seta que sou 
Já carrega em si 
Início e destino final
Avenida sem sinal
Cometa em órbita astral 
Marchinha no carnaval
Passarinhada no milharal
O mar e seu sal 

Partiu a flecha, pois
Imparável 
Irrevogável
Irreparável
Inconciliável
Partiu

P a r t i u  -  s
                       e



* * *

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

Seca

Coragem é perfurar o céu

Galho em riste rasgando o azul
As últimas folhas secas 
amarelando o setembro
E reluzindo o sol de cada um 

Coragem é tremular ao vento

É envergar no temporal
É ranger, flexível 
E chicotear de volta o que vem
É reconhecer que o açoite de você não vem

Coragem é traduzir a luz em fogo

É soltar no mundo a mágoa
Se diluir em sonho e olhos d'água 
Descobrir-se nascente e foz 
onde a vida deságua


* * *

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

Imagens oníricas

Os delírios 
do meu sonho 
são como seta
caminho traçado 
na borda
gravura da reta 

Espiral 
De trilhas 
oníricas
Imagem
Do pó 

Pista bordada 
de sonho
Apontamento
Do nó 

Intervenção do divino
no corpo :
Entrelaçar

Do desejo 
abafado na sombra
O despertar 

Vejo cores minhas e suas
Diluídas no carrossel 
Flecha de afetos gigantes 
Rede lançada no céu 

Quantos bordados 
de luz e de sol
Inda iremos captar ?

Manifestar no mundo
Mudança
Saber pra onde lançar o olhar 

Se eu sonhar contigo, 
amigo
O sonho não é de um só 
É mistério 
É segredo do mundo
É sussurro de avó


* * *

sexta-feira, 28 de julho de 2023

Saudade

Ensinaste-me com os olhos 
todos os mistérios da tua vida
Falar de corpo e gesto
Mistérios do mundo 
pra me ensinar 

O queixo no meu peito 
Olhos nos meus
E a gratidão 
pelos últimos ventos à janela 

Pelos cheiros do mundo 
a invadir as narinas breves e úmidas 
que tanto diziam na minha pele 
pela presença 

No encostar dos fios macios de pelo
Na abertura alegre da companhia 
sob o rendado da rede
No desfrutar silencioso 
e mútuo 
de todas as brisas refrescantes
De todos os pisos geladinhos 
E de todos os passeios no por do sol 

Fragilidade serena
E o entregar-se 
de corpo inteiro 
nas mãos da vida 

Nos últimos dias 
tudo o que você sabia 
quis me ensinar 

E eu 

"Preciso aprender 
os mistérios do mundo" 
pra te encontrar.


* * *


[ Para o meu companheiro não humano que se diluiu 
  na teia da vida em 21 de março 2023, 
  primeiro dia do ano novo solar . 
  Romeu, você está em todas as folhas 
  de todas as árvores, nas minhas lágrimas 
  e também nos sorrisos. 
  Obrigada por tanto. ]

domingo, 23 de julho de 2023

Brisa

Se o fogo encontra o sopro
Labaredas dos ares
Fornalha gigante se forma
Encontro de olhares 

Matéria divina se cria
Sempre nova invenção 
Como som da canção que se ouve
Por debaixo do chão 

Uma fissura no frio se abre
Umidez dos orvalhos nos vales
Como enchesses todos os lugares
Da brisa quente dos mares


***


[ para meus (vários, muitos) amigos e amigas de ar
  que potencializam minha existência de um jeito ímpar
  e oxigenam os meus dias ] 

quarta-feira, 31 de maio de 2023

Flor

Tatuo a pele para lembrar que as tuas flores, em vão, eram sementes de prazer que não vingaram 

Que a pele, pelos eriçados, é a flor onde aflora o novo e camada de novos caminhos 

Que os caminhos, se me parecem tortos, é que são curvos feito rio, e se curvam montanha abaixo à procura de outras águas. 

Que as águas sempre se encontram.
Que o mar é feito de encontro.
E encontro é fazer do mar, pele. 

É da pele que faz-se o mar.



* * *

terça-feira, 23 de maio de 2023

Café

A gente faz amor por telepatia. 

Faz no fazer da ideia
No encontro dos olhos, 
que
linguagem secreta -
Desvendam o momento exato 
da concepção daquela coisa fluida e transparente que traçamos juntos. 

Juntos, dar à luz à portais pela luz dos olhos. 

No encontro encontrar o infinito do outro,  como quem esbarra na beira de um buraco de minhoca:
Imenso, impressionante, cheio de estrelas. 
Olhar e ver ali o universo. 

Ouvir do encontro uma palavra e ela catalisar um turbilhão de novidade dentro, cascata de palavras farfalhantes ao redor, oceano de vir a ser possível nesse lugar de potências. 

Um universo inteiro de linguagem capaz de recriar o mundo 
e refundar todas as belezas pelo som da voz. 

Dividir o café.
E fazer disso o ato sagrado que pactua nossa existência comum nessa existência.


*