sábado, 23 de março de 2013

Exílio


Seus olhos em nada creem do que veem: viram demais.

A boca, antes cheia de orações, trazia agora as marcas da hóstia amarga que o papa lhe fizera deglutir em cada centímetro do corpo: nenhuma palavra, nenhum sorriso. Só cicatrizes.

Quis seguir os passos do mestre, e lhe feriram os pés.
Jurou que seguiria de suplício em suplício as palavras que lia, mas tinha apanhado tanto que os olhos já nem podiam ver nitidamente a face de seu algoz.
A mente, outrora firme em seguir até a morte por seus ideais, fora desconjuntada pelas sucessivas descargas elétricas nas fontes.  Acabou por traí-los: os ideais, os companheiros, a si mesmo e ao povo brasileiro.

Agora longe, em flashes revivia os momentos de terror passados no Brasil.

 “Quando eu venho para cá, deixo o coração em casa” – dizia o monstro a lhe torturar. As vozes ecoando em sua mente perturbavam sua existência, lhe faziam desejar a morte ao invés da vida não vivida que tinha longe de casa.

Sentia falta da sua terra, de sua gente, de seu povo.
Fora por eles que lutara, e desejava desesperadamente voltar para lá.

Depois do que vivera, não rezava mais. Nem cria em mais nada.  Em seu cérebro só havia lugar para o desvario.

E para as vozes. Ah, as vozes.

“Traidor! Traidor do Brasil!”
“Beija a mão do papa, beija!”

Caminhou até a árvore que observava havia dias, a corda escondida no casaco de lã.
Subiu, fez o nó. Morreu sob os galhos gélidos do inverno europeu.
Sem pátria, sem chão, sem fé.
E finalmente esqueceu as vozes.

Entretanto, sua voz ainda ecoa junto às milhares de vozes que cantam o hino nacional, cada vez que o cantam neste Brasil de tantas sombras passadas que ‘inda acinzentam o presente...

“Quando os regatos límpidos de meu ser secarem, minha alma perderá sua força. Buscarei então pastagens distantes, lá onde o ódio não tem teto pra repousar. Nos dias primaveris, colherei flores pro meu jardim da saudade. Assim externarei a lembrança de um passado sombrio.” Frei Tito.

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Um comentário:

  1. Olá, adorei a postagem. Hoje assisti ao filme e me encantei com este trecho que você postou aqui. Parabéns pelo blog!

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