sábado, 9 de março de 2013

graziella


    Quando a cunhada gritou pelo seu nome, nem imaginava o que poderia ser. Talvez fosse pra ajudar no almoço, temperar o feijão ou provar o sal da carne que sempre lhe era servida fria a sal, consequências da hipertensão que a idade avançada fazia agravar. Em plena terça-feira, ué, só podia ser isso.

"Já vai, já vai!"

    Chegou na cozinha da casa e estranhando o chamado não vir de lá, foi indo pra porta da sala. E quando viu, ele estava lá, quase irreconhecível depois de tantos anos. Mas quando o olho bateu no seu, o arrepio na espinha fez qualquer sombra de dúvida se dissipar. Aquilo lá que sentia, resquícios dos 18 anos que viveram juntos, ainda fazia as pernas bambearem e o coração querer bater mais apressado. Mas não batia não. Tinha aprendido a adormecer o danado do sentimento que tanto lhe fizera sofrer de alma, e de corpo também. Lembrava dos vergões arroxeados que aquelas mãos tatuavam em sua pele mais moça, de seu feio reflexo no espelho, os olhos inchados do choro ininterrupto daqueles dias... Enquanto via Antônio entrar, as imagens daquilo que passara lhe vinham à mente feito um filme daqueles em preto e branco em videocassete, como se fosse não mais que telespectadora daquela história, um passado tão triste e distante que preferia fingir não ter vivido.

 ***

    Não aguentava mais de tanta saudade. De manhã, quando fora ao mercado, mais uma comadre lhe perguntara pelo marido, que tinha ido pro Sul do país já iam completar três anos, e que desde então mal mandara notícias de como andava a vida lá por São Paulo.
    Cada vez que alguém lhe perguntava por Antônio ela sentia um aperto enorme no peito, uma vontade escandalosa de ter seu homem por perto, de fazer os sete filhos terem a felicidade de crescer tendo a figura paterna presente. A vizinha da frente vivia dizendo: "Eita, Graziella! Olha que criar filho homem sem pai por perto num dá certo. O menino aviada mesmo, tu abre o olho!".
    Foi então que, juntando a saudade com a encheção de saco da vizinhança, acabou por decidir ir embora: vendeu tudo e mandou-se pra São Paulo atrás de Antônio, ela e três das crianças. As outras deixou com os familiares no Ceará, na promessa de ir buscar em breve, tão logo a vida por lá se aprumasse. Quando chegou na rodoviária depois de dias de estrada poeirenta, achou que ia encontrar um sorriso feliz e um abraço daqueles que só Antônio sabia dar, entretanto o que viu à sua espera foi uma figura fria, que lhe carregou as malas entre meias palavras e monossílabos proferidos em resposta às perguntas que ela, entusiasmada com a grandeza da capital, lhe fazia ininterruptamente durante o caminho até o lugar que ele havia arrumado pra ficarem: uma casinha no interior do estado, até boazinha.

   Mas boa mesmo, a vida não era não. Viviam com dificuldade, ela costurando pra fora e ele trabalhando de pedreiro onde dava. Mas ia vivendo, ao menos tinha o marido do lado. Só que aí um dia Antônio chegou embriagado em casa, falando alto, xingando as crianças, uma brabeza só. Aquele ali num era seu homem não, não podia ser. Quando ela tentou acalmar o marido, o traste deu-lhe na cara, e vendo-a chorar de dor puxou-lhe os cabelos e a arrastou até quarto. A fez cumprir os deveres de esposa entre xingamentos e bofetadas que menos doíam que ouvir seus pequenos batendo na porta do quarto, berrando pela mãe.            Desde então, sua vida virou um inferno. 
    Trabalhava que nem doida durante o dia: casa, comida, crianças e encomendas de costura. À noite, as surras de Antônio, quase sempre bêbado, lhe faziam chorar feito criança. Vez ou outra ele, lúcido, lhe pedia desculpas e prometia que ia largar o vício. Ela coração mole, perdoava e vivia feliz da vida umas duas, três semanas, aí ele aparecia embriagado novamente e ela se desfazia em lágrimas.
    Certo dia uma mulher morena veio à sua casa, e vendo as manchas que Graziella trazia na pele, adivinhou a situação. Dizia-se ex de Antônio, tinha passado pela mesma situação que ela há tempos atrás, naquela mesma casa em que agora ela estava. Lhe aconselhou a deixar o homem que aquilo não era vida que prestasse, mas ela nem ligou.
    Tempos depois Antônio chegou em casa dizendo que ia passar uns tempos no Ceará: ver os parentes, matar a saudade da terra... Nunca mais voltou.

    O tempo foi passando sem cartas nem cartões de Antônio, e Graziella suando sangue pra criar os filhos sozinha, até que o Carlos colou na dela. Um negrão alto, daqueles pra ninguém botar defeito. E queria casar com ela, criar os filhos dela. Acabaram se amigando. E ela apaixonou-se aos poucos por ele, encontrou um pouquinho de paz. Devagarzinho foram construindo a vida: ela mandou buscar as outras crianças no Ceará, os filhos menores já  chamavam Carlos de pai... Conseguiu ser feliz. Foi algumas vezes na terra natal, viu os parentes, abraçou os amigos e preferiu fingir que Antônio não existia.
    Agora, aposentada, vida mais tranquila, os filhos já grandes queriam notícia do pai de verdade, e tamanha foi a insistência deles que ela acabou por pegar um avião pro Ceará. Tinha ao menos que descobrir se a criatura não tinha batido as botas, mostrar a foto dos filhos pra ele, ver se a cara do infeliz ao menos tremia...

***

    Olhando pela janelinha da aeronave, ela desenterrava um filme que há muito não via, e só interrompeu a sessão quando a voz da moça soou pelos autofalantes. Apertou o cinto, respirou fundo e pediu a Deus que a ajudasse no que ia fazer. Adorava estar no Ceará de novo, mas de todo jeito aquilo lhe reabria feridas na alma que doíam demais pra serem ignoradas...
    Enfim o avião parou, e ela teve de se levantar. Desafivelou o cinto, refez o rabo de cavalo e esticou as dobrinhas do vestido vermelho e preto, o seu preferido. Ajeitou os óculos, pegou a bolsa e entrou no túnel. Ainda eram 4 da manhã e do lado de fora do aeroporto o sol ainda não se via, mas o céu já era clarinho, clarinho.

De repente, ficou feliz: ia ver de novo o sol nascer na terra do sol.


(...)

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