Quantas vezes o corpo padecido chora urgente pelo tempo
Por quebrar as artificialidades que criamos para apenas ser
Para vaguear serenos na suspensão de tudo
Sumidos do mundo e aparecidos dentro
Encontrados apenas na saleta do coração
Invisíveis do wifi e do sinal de telefone
Inencontráveis nos telemeios convencionais
E vibrantes e visíveis apenas nos reinos telepáticos
Em que as pessoas vivem orientadas pelos sensores do corpo
Ouvem suas vozes internas
E contam umas às outras os seus sonhos
Penduram suas redes nas árvores em volta
Curam as confusões da cabeça com descanso e banho de ervas
E com o desfazimento radical das ilusões dos poderes
Ah, as ilusões
Lindas, todas
Brilhantes feito as luzes de muitos refletores de led
Iluminando todos os salões e encandeando todos os olhares
E ainda assim mortas
Incapazes de germinar a vida
com tanta luz fria
e branca
branca e inóspita
Esvaziada de fôlego
Quando eu me sentir morta quero lembrar que posso talvez estar em estado de semente
E usar as energias restantes pra me enfiar na terra, e para deitar ao sol
E aguardar que uma fissura na casca faça entrar a água
E inchar
E encharcar
E deixar a luz dourada e amarela
me ebulir
me chocar
me explodir
De um jeito outro,
renascer.
* * *