terça-feira, 27 de maio de 2025

Inverno

Quantas vezes o corpo padecido chora urgente pelo tempo
Por quebrar as artificialidades que criamos para apenas ser
Para vaguear serenos na suspensão de tudo 
Sumidos do mundo e aparecidos dentro
Encontrados apenas na saleta do coração 

Invisíveis do wifi e do sinal de telefone
Inencontráveis nos telemeios convencionais 
E vibrantes e visíveis apenas nos reinos telepáticos 

Em que as pessoas vivem orientadas  pelos sensores do corpo
Ouvem suas vozes internas 
E contam umas às outras os seus sonhos 

Penduram suas redes nas árvores em volta 
Curam as confusões da cabeça com descanso e banho de ervas
E com o desfazimento radical das ilusões dos poderes 

Ah, as ilusões
Lindas, todas
Brilhantes feito as luzes de muitos refletores de led 
Iluminando todos os salões e encandeando todos os olhares

E ainda assim mortas 

Incapazes de germinar a vida 
com tanta luz fria 
e branca
branca e inóspita
Esvaziada de fôlego 

Quando eu me sentir morta quero lembrar que posso talvez estar em estado de semente
E usar as energias restantes pra me enfiar na terra, e para deitar ao sol
E aguardar que uma fissura na casca faça entrar a água 

E inchar
E encharcar
E deixar a luz dourada e amarela 
me ebulir 
me chocar
me explodir
De um jeito outro, 
renascer. 



* * *

segunda-feira, 19 de maio de 2025

Canção desconfigurada

Canção de beira de estrada 
Nenhuma forma de crer 

Nenhuma forma de nada 
E o atalho é esquecer 

Nem multidão na estrada 
Nenhuma forma de ver

Quase você
Quase você
Quase você
Quase você 

Nenhuma história triste partiu
Nenhum evento que cancelou
Não era mais primeiro de abril
Só um dia qualquer que acabou 

Quase você
Quase você
Quase você
Quase você 

No hemisfério sul as geleiras derretem mais 
Olhar pro céu azul ainda é uma forma de cais
As mudanças climáticas derrubam drasticamente 
as casas dos que já não tem 
nada demais


* * *




[Escutei essa canção na voz da adriana cancanhotto e do arnaldo antunes, num show-sonho que parecia dos dois juntos. Kkkk. Eles fantasiados de um jeito meio astronauta, meio etevaldo do castelo rá tim bum, o que tornava difícil ou menos óbvio reconhecer quem era quem, exceto pela voz na hora que emitiam cada verso rsrs. 
a última estrofe, inclusive, é na voz dela falada, ao invés de cantada.
Sim, isso tudo foi um sonho meu de ontem pra hoje. 
Os dois fizeram shows aqui no ceará recentemente e eu não fui à nenhum deles e acho que essa foi uma forma da minha cabeça me consolar do quanto a gente quis estar lá.]

domingo, 11 de maio de 2025

Astra rainha

Ser mulher é viver com a lua a perturbar as entranhas
Ter a água de todas as marés dos mundos visíveis e invisíveis 
a preencher e esvaziar o corpo de tempos em tempos

Sentir-se enlouquecida pela luz na fresta do telhado 
no meio da madrugada e ter que dançar

Ter que se diluir nos mistérios do corpo 
Aberto 
Disperso 
Fechado
Incompleto  

Sempre movendo-se pela força gravitacional insuportável que tudo orquestra 

Girar em círculos enquanto a terra gira 
e feito a dança de todas as águas 
se lançar ao céu 
na esperança absoluta de qualquer hora finalmente encontrar a astra rainha

A centelha deste espaço sideral cá embaixo
Aquela que branca e nua e reluzente acende todos os olhares em sua direção 

Atrai 
Magnética
Todos os corpos terrestres 
Todas as linhas de dúvidas 
Todos os quereres e poderes 
Todos os desejos de ser e de estar
Todas as sementes de vir a ser 
Todas as colheitas 
Todas as onças nas capoeiras 
Todos os cachorros em uivos ancestrais 
Todas nós em rodas de cantos e danças formadas bem dentro 

Bem antes da criação da palavra
O verbo-corpo pairava sobre as águas
E a lua era o início do que seríamos nós. 


* * *


[Quem consegue dormir numa lua quase-cheia e ainda crescendo em escorpião?]