terça-feira, 27 de maio de 2025

Inverno

Quantas vezes o corpo padecido chora urgente pelo tempo
Por quebrar as artificialidades que criamos para apenas ser
Para vaguear serenos na suspensão de tudo 
Sumidos do mundo e aparecidos dentro
Encontrados apenas na saleta do coração 

Invisíveis do wifi e do sinal de telefone
Inencontráveis nos telemeios convencionais 
E vibrantes e visíveis apenas nos reinos telepáticos 

Em que as pessoas vivem orientadas  pelos sensores do corpo
Ouvem suas vozes internas 
E contam umas às outras os seus sonhos 

Penduram suas redes nas árvores em volta 
Curam as confusões da cabeça com descanso e banho de ervas
E com o desfazimento radical das ilusões dos poderes 

Ah, as ilusões
Lindas, todas
Brilhantes feito as luzes de muitos refletores de led 
Iluminando todos os salões e encandeando todos os olhares

E ainda assim mortas 

Incapazes de germinar a vida 
com tanta luz fria 
e branca
branca e inóspita
Esvaziada de fôlego 

Quando eu me sentir morta quero lembrar que posso talvez estar em estado de semente
E usar as energias restantes pra me enfiar na terra, e para deitar ao sol
E aguardar que uma fissura na casca faça entrar a água 

E inchar
E encharcar
E deixar a luz dourada e amarela 
me ebulir 
me chocar
me explodir
De um jeito outro, 
renascer. 



* * *

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