domingo, 11 de maio de 2025

Astra rainha

Ser mulher é viver com a lua a perturbar as entranhas
Ter a água de todas as marés dos mundos visíveis e invisíveis 
a preencher e esvaziar o corpo de tempos em tempos

Sentir-se enlouquecida pela luz na fresta do telhado 
no meio da madrugada e ter que dançar

Ter que se diluir nos mistérios do corpo 
Aberto 
Disperso 
Fechado
Incompleto  

Sempre movendo-se pela força gravitacional insuportável que tudo orquestra 

Girar em círculos enquanto a terra gira 
e feito a dança de todas as águas 
se lançar ao céu 
na esperança absoluta de qualquer hora finalmente encontrar a astra rainha

A centelha deste espaço sideral cá embaixo
Aquela que branca e nua e reluzente acende todos os olhares em sua direção 

Atrai 
Magnética
Todos os corpos terrestres 
Todas as linhas de dúvidas 
Todos os quereres e poderes 
Todos os desejos de ser e de estar
Todas as sementes de vir a ser 
Todas as colheitas 
Todas as onças nas capoeiras 
Todos os cachorros em uivos ancestrais 
Todas nós em rodas de cantos e danças formadas bem dentro 

Bem antes da criação da palavra
O verbo-corpo pairava sobre as águas
E a lua era o início do que seríamos nós. 


* * *


[Quem consegue dormir numa lua quase-cheia e ainda crescendo em escorpião?]

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