Ser mulher é viver com a lua a perturbar as entranhas
Ter a água de todas as marés dos mundos visíveis e invisíveis
a preencher e esvaziar o corpo de tempos em tempos
Sentir-se enlouquecida pela luz na fresta do telhado
no meio da madrugada e ter que dançar
Ter que se diluir nos mistérios do corpo
Aberto
Disperso
Fechado
Incompleto
Sempre movendo-se pela força gravitacional insuportável que tudo orquestra
Girar em círculos enquanto a terra gira
e feito a dança de todas as águas
se lançar ao céu
na esperança absoluta de qualquer hora finalmente encontrar a astra rainha
A centelha deste espaço sideral cá embaixo
Aquela que branca e nua e reluzente acende todos os olhares em sua direção
Atrai
Magnética
Todos os corpos terrestres
Todas as linhas de dúvidas
Todos os quereres e poderes
Todos os desejos de ser e de estar
Todas as sementes de vir a ser
Todas as colheitas
Todas as onças nas capoeiras
Todos os cachorros em uivos ancestrais
Todas nós em rodas de cantos e danças formadas bem dentro
Bem antes da criação da palavra
O verbo-corpo pairava sobre as águas
E a lua era o início do que seríamos nós.
* * *
[Quem consegue dormir numa lua quase-cheia e ainda crescendo em escorpião?]
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