terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Teia

Se exibe na medida em que se ilude.
Se engana tanto quanto pensa que engana.
As formas e fôrmas ilusórias se confundem com o espelho :
não pode saber o que é imagem quando se fez objeto.

Os contornos da realidade se perdem no ar em mais um clique, em mais um minuto de veneração à imagem do desconhecido. De vários desconhecidos, já que a página nunca chega ao fim.

A teia não pergunta sobre a vontade de continuar em transe : não há respiro nem pausa.

Enquanto aspira profundos tragos das vidas alheias, abandona a sua própria.
Ou cria uma outra, paralela e em cores mais vivas, com enquadramento melhor...
No fim do dia, se ambas as platéias tiverem sido convencidas, terá ganho a noite.
Aos poucos nos deixamos, perdemos a alma.

*

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Lua

Escrevo para traduzir em palavras a loucura de dentro.
Teço a teia dos versos para nela deixar registros de que o caos também pode ser são.

As conexões a princípio parecem esparsas e aleatórias, as palavras soltas, vãs.
Mas continuada a trabalheira, quando os contornos ganham definição, e os versos ganham pares, e quando salpicados de rimas e pausas e ritmo, lá estou eu, inteiro.

Às vezes escancarado, numa denúncia auto-pronunciada de minha miséria e fragilidade, das minhas inconstâncias, devaneios e desvarios. Às vezes sutilmente oculto numa estória de outrem. Às vezes falando de tristeza e feiura, às vezes falando da beleza do mar. Ou da lua.

Escrevo para me lembrar de quem sou ou quem fui à cinco minutos ou à cinquenta anos, para ter um jeito de me dizer que os caminhos percorridos tinham beleza e cor, e que as escolhas foram quase todas feitas na lucidez do amor, este livre espírito em que habito.

Escrevo às vezes em desespero, e enquanto os garranchos rápidos se organizam e tomam forma e as sílabas encontram seus lugares, me encontro. Esqueço a urgência dos dias, e me lembro que é mais urgente sentir o sabor de cada um deles.

Enquanto escrevo me lembro que tenho direito de olhar o céu, de me encantar com a lua cheia e de me deixar enluarar e nadar na luz dourada. De suspirar enquanto olho fixamente para ela, como se olhasse em seus olhos. Me lembro que é permitido subir num banquinho ou num cavalete e ficar na ponta do pé só pra ver ela nascer...

A lua hoje, deitada no azul
pontilhou de luz o meu chão
abriu as portas da emoção
despertou do sono o coração

Por entre as folhas e galhos e nuvens
sorriu para mim num flerte e piscou :
eu vi seus cílios de cetim
soprarem um beijo pra mim


*

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Maré

Não posso ser transparente, o rio de águas claras a correr sobre as pedras.
Minhas águas são turvas e fundas, e obscuras.
Tenho camadas.

Preciso me guardar pra mim um pouquinho, como a Monalisa e seu segredo sorridente:
Cores sóbrias e mãos sobrepostas e uma mensagem encoberta.

Nas curvas sombrias, alguma pedra onde eu possa esconder um peixe ou uma concha,
onde me guardo e aguardo.
Sob o cascalho e os seixos, o inesperado.

Gosto de ter um canto secreto para guardar um mistério que nem mesmo sei,
mas que sempre invento e reservo como sendo tudo de mais precioso em mim.

Tenho desejos.
Ei, psiu!
Tenho desejos.
Mas não faça alarde!

Me parece um tanto esquisito dizê-los, pois escapam de mim fortuitos,
donos de si e flutuantes.
E vão-se embora.
Sempre voam e vão.

Somem em minhas espumas.

Não posso ser tão transparente, nem tão clárida, tenho que ser louca.
Em minha loucura tudo cabe em mim.

Bravio que sou, até o que não me cabe de algum jeito me atravessa,
de algum jeito me conserta, a seu jeito me transforma.


*

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Mau humor

Ácido e náusea feitos de tédio.
Composto de notas dissonantes e todos os sons mais feios.
É de matéria densa e pegajosa : se engancha nas tripas.

Contorce o estômago e corrói o fígado.
Desunera o sangue e amarela os olhos.
Deixa a pele sebenta.
Fede.

Azeda o leite e arruína o arroz.
Enverga o esqueleto.
Escorre lento sobre tudo e respinga ao redor suas gotas indesejadas.

É sólido mas se espalha, rastejante.

Enquanto seus tentáculos se expandem e se contraem, tenho ânsia de vômito.
O danado ainda ronrona, como se merecesse carinho, e ai de mim se não o satisfaço.
Toco o invólucro gelatinoso e em lenta agonia deslizo os dedos.
O ácido estomacal sobe involuntariamente à boca : engulo.

A teia agora me enlaça e adere ao meu corpo, e já não podemos nos dissociar.
Tomo a fera em meus braços e a oculto debaixo da blusa:
prefiro que não lhe vejam os dentes, pois parecem muito com os meus.


*

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Azul - brilhante

É tempo da estiagem.
Tempo das reservas.

As lágrimas permanecem dentro para não gastar a água e a vida estocadas.
Por fora a superfície brilha, com sua blindagem de cetim intacta:
Foi para agora que teceram em nós a casca espessa.

O que está dentro não deve sair.
Não há do lado de fora nada que deva entrar.

O céu exibe um azul escandaloso e penetrante, e quanto mais a luz se expande e se intensifica, mais caem as folhas e mais se retrai a pupila.
É tanto sol que constrange a pele.

O desfile do astro-rei desgasta e produz dormências.
Empurra para a inevitável nudez dos galhos, para a espera do recomeçar dos ciclos.

Emudece e provoca recolhimento.
Suscita à quietude, à reflexão...
Induz o coma para preservar a vida.

Em dias ressequidos, a luz do sol é desejo de chuva...
Para quem espera a nuvem, o azul-brilhante é a cor da tristeza.


*

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Fadiga

Estou cansado das minhas palavras.
Cansado de ouví-las flutuar da minha boca e tocar seus ouvidos em vão.
Cansado de tecer as teias dos versos para neles captar alguma beleza repetida que você cansou de ver.

Para que servem os seus olhos?
Não é o mesmo o som que chega aos seus ouvidos?
Que janela escolheu para se ver?

Me ouço desfiando a mesma trama, sobre a mesma lógica e sob o mesmo céu, e antes que eu termine a primeira frase, como quem conhece o futuro, já me prevejo tristemente arrependido pela decisão de separar os lábios e esboçar algum som.

Eu devia ser silêncio.
Mais sábio, mais tenro.
Sustentar os ares do mistério didaticamente.

Retirar os óculos do rosto, suspirar e fingir que desisto, que entendo.
Deixar as bobagens a ver navios, devidamente sem resposta.
Me colocar em seu lugar, imaginar todas as causas, causos e acasos que lhe produziram e que te puseram pra olhar a vida daí.

Cascavilhar alguma última paciência, sustentar a face calma.
Sorrir e acenar.
Piscar lentamente os olhos e balançar a cabeça num sorriso amarelo.

Deixar passar a piada e a vida.
Deixar que ela passe em cima de você.
Deixar que a sua cara se espatife na primeira parede e que os estilhaços pontiagudos da sua língua atinjam em cheio o seu pé.

A dor então virá pra criar uma fresta na medida exata da luz que precisa entrar.
Enquanto faz careta e pula num pé só procurando alívio, descobrirá as sombras de dentro. Se assombrará com as feiúras que guardou e se sentirá pequeno, inacabado.

Com a dor, virá espaço para abrigar o mundo inteiro em amor.   
E eu não terei mais que me cansar.

*


sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Esperança extraviada

Beba
Nas fontes dos poetas, dos artistas
Folheie os jornais e as revistas
Vasculhe tudo quanto possa haver

Ouça
Nos címbalos sonoros, noutras notas
Escute os discos velhos, tantas obras
Desvende o mistério que restou...

Onde a esperança se escondeu?
Onde o amor esmaeceu?
Onde ficaram os versos raros e a flor?

Pode outro dia clarear ?
Se não há tempo pra sonhar ?
Se nem mesmo a gente se atreve a imaginar ...

um outro lugar ?

*