sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Desconhecido

só te conheço em verso
contorno em meio a neblina que sou
vertigem em meio a imagem que fui

imagens são sons em mim
palavras são verdade 
e se encarnam

só te conheço em verso
e ainda assim, que mal
delineio em você o que quero ver

costuro a fantasia da completude
e veja bem, pra você vestir

se vista de mim
me reflita
me espelhe

sejamos gêmeos
almas gêmeas, não
sejamos cópias
não complementares

seja a mim,
e aí me seja


*

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Onça-pintada

Sinto primeiro os indícios no ar. Sigo pelo cheiro.
Como cega.
Silente, experimento a imersão em mim pelo olfato. 
O mapa é traçado.
Sigo.

Chega muito depois nos outros sentidos.
A vibração do som e os primeiros lampejos na retina já são a explosão dos músculos incontidos, urgentes, obstinados na tarefa.
A tarefa é a morte.
A morte é minha vida.
O cheiro do sangue é sinal de que minhas veias continuarão a pulsar.

Circundo o território, numa espera paciente de seu deslize.
Me deito. Me levanto. Rio e converso. 
Faço estas e outras coisas, ocupo as mãos e a mente - seu cheiro não abandona minha pele. 
Estou consciente da sua presença no ar. 
Memória elétrica, você é coisa que reverbera.
Minha existência parece ter sido forjada para tragar a sua.
Desculpa.

Assustei você?


*

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Por dentro

Ter dimensão da enormidade das próprias entranhas
Somos imensas
Dentro de nós cabe tanto

É no oco e no vazio que moram nossas maiores potências
É no espaço que abrimos em nós que mora o prazer
É em se abrir a flor de carne 

Na troca
No afastar das pernas para o abraço do mundo

Em me abrir é que mais me tenho


*

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Aérea

Como Carlota, estou enraizada bem no meio desta terra.
Me imagino transmutando-me em outra: raízes-escora, aérea, caminhando pela vida.
Meu ascendente de elemento terra me pergunta se o que eu criei sob meus galhos ficaria bem.
Se sobreviveria. 

Todo um ecossistema. 
Amores grandes e pequenos, amigos. 
Flores cultivadas e flores espontâneas, todas belas.
Passarinhos, borboletas, besouros.
Minhas folhas que por anos tem protegido este chão.

Enquanto minhas raízes estão aqui sob a terra, quentinhas e úmidas, me pergunto se dói tocar o ar. 
Se este vento ressecaria minhas entranhas a partir da pele.
Quanto tempo eu duraria.

Às vezes eu e Carlota somos uma só, expandindo infinitas nossas raízes. 
Nos movemos pelo fogo que nos habita.
Aparentemente imóveis, mas em expansão. Percorrendo a terra desesperadas por um pouco de água e ar. Plenas de fogo e lenha, mas sem oxigênio.
Como arderemos, Carlota? 
Quando nossas labaredas serão vistas do céu?

Para despistar nossa expansão, eu e Carlota podamos nossos próprios galhos - temos agora esta copa discreta. Dizem que podando a copa, as raízes esbarram de crescer, de se ir pra tão longe.
Carlota é uma Ficus - por sua natureza tem raízes que a fariam rebrotar à metros de distância de onde está plantada.
Se me cortarem, será que rebroto fora daqui? À muitos metros distante? 
Minha natureza será de rebrotar?

Aos pés de Carlota esqueço que tenho pernas.
Gente tem pernas. E caminha.
Tem raízes de ir e vir.


*

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Bicho-homem

Quando me sinto mais bicho

me percebo mais gente

mais vivo no meu corpo

ativo no presente

 

Se adormeço o bicho homem

entorpeço o homem que é gente

se amorteço a minha fera

também morre o consciente

 

Floresço entre louco e são

não mais faço a cisão

entre o que é da cabeça

e o que na pele se sente

 

Alma e corpo são um só

um novelo de nós

o fio dos afetos

costura a mente 



*

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Códigos

os meus olhos fugidios                            

saltam por entre os teus olhares

p l u m a s

c a m a d a s

d i s f a r c e s

melhor não me observares

que o que eu ainda não te disse 

pode escapar num raio

num átimo

milésimo

que nunca precisastes de muito 

para me decifrares


*

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Ânsia

Teus desejos,
não espalhes ainda na voz.
Guarda-os, devora-os.
Engravida deles.
Gera, paciente, vida a partir -
são semente.
Provê calor e umidade,
luz na medida.
Aguarda até que se abram -
flor da ferida.

*