quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Fio

Ainda há o fio
fino
frouxo
tênue
quase invisível

que carrega as coisas que eu penso
vagamente
pra você

o que chega aí 
é quase um murmúrio
um vento
um quase nada
uma sensação 

de que é coisa da sua cabeça
de que fios se partem 
de que amores e quereres se vão
que são vãos

vez ou outra acordo 
com uma canção no ouvido
vinda de um sonho
cantada na voz

cantada em sua voz, não na minha
não produzi aquilo, não poderia

acordo
sento
escrevo
e canto

a canção foi o fio que mandou de você



*

domingo, 3 de janeiro de 2021

Constatação

Estou cercada de muitas razidões
eu mesma pareço não ter mais nenhuma profundidade
As razões que cada um detêm entulham os poços de mim 


*

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Adventos

Desejo é uma nuvem quente
corrente
demente

é nevoa densa de corte
apelo solene à morte
é se lançar à sorte




*

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Desconhecido

só te conheço em verso
contorno em meio a neblina que sou
vertigem em meio a imagem que fui

imagens são sons em mim
palavras são verdade 
e se encarnam

só te conheço em verso
e ainda assim, que mal
delineio em você o que quero ver

costuro a fantasia da completude
e veja bem, pra você vestir

se vista de mim
me reflita
me espelhe

sejamos gêmeos
almas gêmeas, não
sejamos cópias
não complementares

seja a mim,
e aí me seja


*

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Onça-pintada

Sinto primeiro os indícios no ar. Sigo pelo cheiro.
Como cega.
Silente, experimento a imersão em mim pelo olfato. 
O mapa é traçado.
Sigo.

Chega muito depois nos outros sentidos.
A vibração do som e os primeiros lampejos na retina já são a explosão dos músculos incontidos, urgentes, obstinados na tarefa.
A tarefa é a morte.
A morte é minha vida.
O cheiro do sangue é sinal de que minhas veias continuarão a pulsar.

Circundo o território, numa espera paciente de seu deslize.
Me deito. Me levanto. Rio e converso. 
Faço estas e outras coisas, ocupo as mãos e a mente - seu cheiro não abandona minha pele. 
Estou consciente da sua presença no ar. 
Memória elétrica, você é coisa que reverbera.
Minha existência parece ter sido forjada para tragar a sua.
Desculpa.

Assustei você?


*

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Por dentro

Ter dimensão da enormidade das próprias entranhas
Somos imensas
Dentro de nós cabe tanto

É no oco e no vazio que moram nossas maiores potências
É no espaço que abrimos em nós que mora o prazer
É em se abrir a flor de carne 

Na troca
No afastar das pernas para o abraço do mundo

Em me abrir é que mais me tenho


*

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Aérea

Como Carlota, estou enraizada bem no meio desta terra.
Me imagino transmutando-me em outra: raízes-escora, aérea, caminhando pela vida.
Meu ascendente de elemento terra me pergunta se o que eu criei sob meus galhos ficaria bem.
Se sobreviveria. 

Todo um ecossistema. 
Amores grandes e pequenos, amigos. 
Flores cultivadas e flores espontâneas, todas belas.
Passarinhos, borboletas, besouros.
Minhas folhas que por anos tem protegido este chão.

Enquanto minhas raízes estão aqui sob a terra, quentinhas e úmidas, me pergunto se dói tocar o ar. 
Se este vento ressecaria minhas entranhas a partir da pele.
Quanto tempo eu duraria.

Às vezes eu e Carlota somos uma só, expandindo infinitas nossas raízes. 
Nos movemos pelo fogo que nos habita.
Aparentemente imóveis, mas em expansão. Percorrendo a terra desesperadas por um pouco de água e ar. Plenas de fogo e lenha, mas sem oxigênio.
Como arderemos, Carlota? 
Quando nossas labaredas serão vistas do céu?

Para despistar nossa expansão, eu e Carlota podamos nossos próprios galhos - temos agora esta copa discreta. Dizem que podando a copa, as raízes esbarram de crescer, de se ir pra tão longe.
Carlota é uma Ficus - por sua natureza tem raízes que a fariam rebrotar à metros de distância de onde está plantada.
Se me cortarem, será que rebroto fora daqui? À muitos metros distante? 
Minha natureza será de rebrotar?

Aos pés de Carlota esqueço que tenho pernas.
Gente tem pernas. E caminha.
Tem raízes de ir e vir.


*