"Primeiro foi a tribo Paraxó (diz, confusa, meio no sonho, meio aqui)
"Lá era tudo tão bom...
O mar dos índios é muito lindo, minha filha."
* * *
"Primeiro foi a tribo Paraxó (diz, confusa, meio no sonho, meio aqui)
"Lá era tudo tão bom...
O mar dos índios é muito lindo, minha filha."
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Ainda existe gente
Que troca abraços gratuitos
Que cria laços indissolutos
Que ama fora de seus redutos
Ainda existe essa gente
Que se bota a forçar as cordas
Que rompe limites e bordas
Que costura afetos nos fios das notas
Ainda existe este olho-coragem
Que se mantêm no meu
Que me traz à margem
Que me vê quem sou
Que ainda assim fica
Que ainda assim se dá
Que dá de ombros pros meus desajustes
Que me vê integral
Humana e ambivalente
Volúvel e fugidia
Insegura
De carne
Ainda assim restam olhos-laços
Que enxergam tudo isso
Só como ser gente
Só como ser parte
Os desvios da mente
e as estrias do corpo
As inconsistências
e as belezas
Todos os fragmentos
de um pacote inteiro de vida.
sem propor culpa
ofertam presença e mais nada.
(isto é graça que basta)
***
Os fazeres com que ocupamos as mãos
nos transformam
Traços, rabiscos, agulhas e linhas
Colheres, réguas, compassos
Níveis de bolha e pá
Me constituem
Trocam fagulhas com meu dna
Flertam com os genes sem no entanto
neles se expressarem
Ou talvez se expressem
E nossos microscópios ainda não sejam
potentes o bastante para traduzir estas
belezas herdadas em mistério
Em silêncio
Em ato repetido
Em ritual cotidiano
Características adquiridas
entre os bolos de milho e as conversas da tarde
Entre o mingau de carimã e o boa noite
Bordadas em minha pele feito as colchas
de restiliê
Pelas frestas das quais me tornei
permeável à você, senhora
Minha amiga
Meu par
Minha avó.
* * *