terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Laços

Estou cercada de mulheres fortes
minhas ancestrais
fundaram o chão que piso 
cavaram no braço as fontes 
que me sustentam

Mocinha
Graziela
Antônia
Rosana

Rosângela
Rosilane
Rosiane
Mirella

Kátia
Cristina
Isabel
Geçonita

Balbina
Isaura
Antônia
Patrocina

Quando eu estava só
e quis desatar os nós
descobri que eu era uma
com milhões  


* * *


quarta-feira, 20 de outubro de 2021

20 de outubro

Eu gosto de mandar recados
assim pela lua
assim pelo vento
pelas nuvens e pelos pássaros

Que as palavras 
são sempre menos que o silêncio
que não dizer nada 
é sempre mais que dizer

Te envio então os meus silêncios
olhares reverentes para o céu de outubro
mergulhos azuis na noite já adiantada
espaços vazios entre o cintilar das estrelas


***

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Fechamentos

Não há culpa nem nada
Apenas desaprendeste 
A ler nos meus olhos 
as verdades transparentes

Escorridas em lágrima 

Finas demais 
para serem deixadas à margem
Discretas, mas poderosas
Poderiam redefinir os rumos 

Do corpo brotaram soluços cabais
Angústia e urgência
Estavam ali 
Desejo desesperado de ficar 

Por vezes intermináveis 
eu fui líquida
Acessível 
Tangível e aberta 

Os olhos aos borbotões 
Vazaram muito mais que sinais
Eram gritos,
Não ouvistes? 

Havia desejo e possibilidades
Eu estive aqui
E vistes,
Mas tinhas outros afazeres. 

Estava ali toda a vida possível
Parecias morto
Ao invés de pulso,
O nada 

Estranhei
Me fiz viúva em vida
Por isso o luto
Por isso o silêncio 

Os olhos tristes 
vageando nas coisas
A despedida inconsciente
Nas felicidades 

Fui dizendo adeus 

Desde o dia que morrestes 
Não tive mais tempo para teu ciúme
Nem para me debater
Nem para debater 

Tudo que fazias era luto e adeus
Cada palavra áspera 
escorrida da sua boca
te ajudou a morrer

Foi uma boa morte.

não foi preciso mais nada
além de te arrancar de mim
pela raiz

e me plantar no seu lugar
e por semente
no lugar que sempre foi meu


*

Tribos

"Primeiro foi a tribo Paraxó  (diz, confusa, meio no sonho, meio aqui)

"Lá era tudo tão bom...

O mar dos índios é muito lindo, minha filha."


* * *

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

Achados arqueológicos

 Ainda existe gente

Que troca abraços gratuitos

Que cria laços indissolutos

Que ama fora de seus redutos


Ainda existe essa gente 

Que se bota a forçar as cordas 

Que rompe limites e bordas

Que costura afetos nos fios das notas


Ainda existe este olho-coragem

Que se mantêm no meu

Que me traz à margem

Que me vê quem sou


Que ainda assim fica

Que ainda assim se dá

Que dá de ombros pros meus desajustes

Que me vê integral


Humana e ambivalente

Volúvel e fugidia

Insegura

De carne


Ainda assim restam olhos-laços

Que enxergam tudo isso

Só como ser gente

Só como ser parte


Os desvios da mente 

e as estrias do corpo

As inconsistências

e as belezas


Todos os fragmentos

de um pacote inteiro de vida. 

sem propor culpa 

ofertam presença e mais nada.


(isto é graça que basta)


***

domingo, 29 de agosto de 2021

Lembrete

Lembrar que nunca seremos suficientes
que a humanidade é exatamente 
sobre a falta, sobre os buracos

A falta move a procura
guia a transformação

Estamos aqui não para encontrar 
o preenchimento de fato, 
mas para caminhar na direção do mutável

Que seja doce cada aprendizado
Que cada dia do processo valha e seja vida
Que a vida inteira seja inteira de vida


*