segunda-feira, 2 de janeiro de 2023
Visita
domingo, 1 de janeiro de 2023
Dança
Findados os tempos de sequidão, o querer latente da terra é de se umedecer.
Os ares ásperos de sol que precedem estes quereres deixam as células sensíveis de todo um ecossistema árido mais que atentas - imóveis - e por isso mesmo em ponto de bala.
A superfície das cascas aguarda ávida uma notícia só, parâmetro do desejo de enverdecer : a primeira chuva.
É curioso. Os seres habitantes do cenário da seca, tão sóbrios e sábios, resilientes e estratégicos, ríspidos e aparentemente fechados em si, cascas grossas e espinhos, caducifólias e resistentes ao fogo, rainhas e senhoras da sobrevivência, depois de tanto aprenderem a se conter, feito mágica, derretem a dureza do ser no primeiro anúncio do escorrer das gotas.
E antes disso, preparam em si o desejo de se lançar à trabalheira desgraçada da renovação : rumas e rumas de folhinhas e mini galhos novos, mini coisas brotando em explosão de fragilidade, numa abertura coletiva para de novo voltar a ser origem, criança, mata virgem. Adolescer.
Depois de meses de se deixar perfurar de luz, do desabar impetuoso do céu sobre o chão, do esmagamento ardente do sol sobre o húmus, depois do consumir das matérias, a água abre espaço e rege a ação oposta.
A penetração agora é no tecido do céu, vida verdejante contraposta ao azul total, avançando no corpo do ar.
A mata cresce, devolve a si mesma seu volume, sua forma e sua abundância, empurrando de volta o que encolhera e ganhando espaço dentro de si.
A vida rasga mata a dentro.
Rompe, desde a raiz , seu silêncio, e de bem dentro engendra a resposta à canção do sol : dança.
* * *
terça-feira, 6 de dezembro de 2022
Passagem
segunda-feira, 14 de novembro de 2022
Refrão
sexta-feira, 7 de outubro de 2022
Juazeiro
quinta-feira, 18 de agosto de 2022
Canção pra acordar a Terra
domingo, 7 de agosto de 2022
Encontros
No sol do olhar de cada um cabem os contornos que o tempo esculpe ao redor.
A gente olha e vê ali no entorno as várias camadas daquele ser, passados e presentes mais antigos e mais próximos, mudanças sutis e mudanças radicais de cabelo, corpo, estilo, roupa e jeitos de ser que variaram, mas que estiveram sempre ancorados naquela medida de sol que é o meio.
Que é o dentro. Que é o centro.
Os amigos da infância, da adolescência, de um tempo em que a gente mesmo era outro, se transformam, desabrocham e murcham, frutificam e voltam a reflorir, e poder enxergar em perspectiva e se deixar ver dentro, nesses vários eus que nos tornamos é o presente mais sutil da vida.
É um presente estar presente e ter estado presente.
As lentes da memória aglutinam as essências e surge um amor desmedido e desapegado a esses outros seres mutáveis que acompanhamos e que nos acompanham.
Testemunhas oculares de todas as coisas que fomos e que tivemos, e que já não somos agora.
Testemunhas de seres inteiros que ao mesmo tempo se desintegraram e se refizeram no tempo.
Expansão e contração.
E é bonito saber que há sempre gente que permanece ali, atravessando junto a vida desde a mais antiga versão que fui.
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