Hoje eu abri a janela do quarto pra aliviar o calorão da tarde e (quem sabe) aliviar também a mente, tão ocupada dos trabalhos, textos, e resenhas de sempre.
Foi só abrir que o ventinho bateu no rosto com força e gosto, arrancando dos meus pulmões um suspiro grandão, desses que a gente só dá quando a pele já sentiu que o ar é puro e fresquinho, nesses raros lugares em que a cidade resolveu ainda não se vender ao concreto, sabe?
Foi aí que eu vi que a árvore que a gente plantou no quintal há uns meses deu um salto só, e já tá passando meio metro do varal de roupa!
As folhinhas novas tremulando no vento pareciam querer fazer sentir como é bom sentir o vento, a natureza...
Foi aí que eu vi umas andorinhas bamboleando agitadas no céu, e o som de uns outros passarinhos se arrumando pra dormir.
Mais ao longe, uns urubus planando compriiido, leves e plenos e tão alto que viravam só pontinhos pretos, miúdos no azul clarinho de céu sem sol.
As nuvens pairando, mais acima, transmitiam aquele sentimento de plenitude que só mesmo as coisas divinas, intocadas pelo dedo do homem são capazes de mostrar.
Cores perfeitas, harmônicas. E sem precisar das regrinhas de combinação que os artistas visuais utilizam.
"Pela janela do quarto, pela tela, pela janela", escapou um sorriso, sem controle.
E no meio da rotina abafada, um respiro.
A brisa fresquinha da poesia.
*
sexta-feira, 15 de agosto de 2014
segunda-feira, 22 de julho de 2013
Depois das onze
A noite caiu e você já dormiu.
O quê que eu vou fazer agora?
Eu faço um café e tomo de colher
Mas já vi que essa noite não passa.
O meu celular
Já pirou de vez
O autofalante quer a sua voz
Então diz aí, o que é que você fez pra eu derreter assim,
falando a sós?
Eu viciei no teu timbre, essa atmosfera musical...
Acostumei com a tua voz.
A tua ausência não é natural...
quinta-feira, 30 de maio de 2013
Pausa pra poesia
Eu só queria dizer de um jeito menos clichê que tudo me lembra você.
Até preferia que o verso não rimasse,
mas se a rima não vingasse
talvez meu compasso desandasse
na batida do teu ser
Ah, como é que pode ser?
viver você é ver, sentir,
é respirar pura poesia
E mesmo estando longe,
só lembrar de ti refaz
um pedaço da minha alegria
O quê que eu posso dizer pra descrever o bem que me faz a tua companhia?
Bem que eu queria descobrir
nesse teu jeito de rir
a tal receita que me contagia
Você me faz escrever mil abobrinhas de amor -
E como é que fica minha aversão à flores e corações?
E essa história de pensar um futuro, de querer rodar o mundo com você
- só
por estar com você -
Parou para pensar que nada disso faz sentido e que tudo isso meio que
foge à razão?
Às vezes demora pra perceber que um mundo tão racional é comandado
- de
quando em sempre -
pelo coração...
segunda-feira, 8 de abril de 2013
Reticências
Um dia irei escrever
algo feito uma canção
que ressoe feito um samba
e que leve no refrão
entrelinhas, entre letras
um dicionário do olhar,
um tradutor da emoção...
Há de ser inconfundível,
desde o primeiro acorde que formar
Há de beijar, a cada pausa
o ouvido de quem escutar...
Há de ser daquele tipo que só se ouve sem pressa,
que é pra tua alma travessa em mar de calma navegar...
* * *
algo feito uma canção
que ressoe feito um samba
e que leve no refrão
entrelinhas, entre letras
um dicionário do olhar,
um tradutor da emoção...
Há de ser inconfundível,
desde o primeiro acorde que formar
Há de beijar, a cada pausa
o ouvido de quem escutar...
Há de ser daquele tipo que só se ouve sem pressa,
que é pra tua alma travessa em mar de calma navegar...
* * *
sábado, 23 de março de 2013
Exílio
Seus olhos em nada creem do que veem: viram demais.
A boca, antes cheia de orações, trazia agora as marcas da
hóstia amarga que o papa lhe fizera deglutir em cada centímetro do corpo: nenhuma
palavra, nenhum sorriso. Só cicatrizes.
Quis seguir os passos do mestre, e lhe feriram os pés.
Jurou que seguiria de suplício em suplício as palavras que
lia, mas tinha apanhado tanto que os olhos já nem podiam ver nitidamente a face
de seu algoz.
A mente, outrora firme em seguir até a morte por seus ideais,
fora desconjuntada pelas sucessivas descargas elétricas nas fontes. Acabou por traí-los: os ideais, os
companheiros, a si mesmo e ao povo brasileiro.
Agora longe, em flashes revivia os momentos de terror
passados no Brasil.
“Quando eu venho para
cá, deixo o coração em casa” – dizia o monstro a lhe torturar. As vozes ecoando
em sua mente perturbavam sua existência, lhe faziam desejar a morte ao invés da
vida não vivida que tinha longe de casa.
Sentia falta da sua terra, de sua gente, de seu povo.
Fora por eles que lutara, e desejava desesperadamente voltar
para lá.
Depois do que vivera, não rezava mais. Nem cria em mais
nada. Em seu cérebro só havia lugar para
o desvario.
E para as vozes. Ah, as vozes.
“Traidor! Traidor do Brasil!”
“Beija a mão do papa, beija!”
Caminhou até a árvore que observava havia dias, a corda
escondida no casaco de lã.
Subiu, fez o nó. Morreu sob os galhos gélidos do inverno
europeu.
Sem pátria, sem chão, sem fé.
E finalmente esqueceu as vozes.
Entretanto, sua voz ainda ecoa junto às milhares de vozes que cantam o hino nacional, cada vez que o cantam neste Brasil de tantas sombras passadas que ‘inda acinzentam o presente...
“Quando os regatos
límpidos de meu ser secarem, minha alma perderá sua força. Buscarei então
pastagens distantes, lá onde o ódio não tem teto pra repousar. Nos dias
primaveris, colherei flores pro meu jardim da saudade. Assim externarei a
lembrança de um passado sombrio.” Frei Tito.
*
sexta-feira, 15 de março de 2013
Instantes que pagam o dia
Um dia, sozinho pensando na vida
Buscava a cura pra sua ferida
Enquanto mantinha os olhos fechados
Garimpava sonhos, tesouros guardados
Lembrava os detalhes bonitos da estrada
Semicoisas indescritíveis na retina gravadas...
Como em filme, reviu mais um pôr do sol à sua frente
E em êxtase, as cores da aquarela pintada na mente
Enxergou o encontro do rio com o mar
Tantos tons de verde e azul
Que mal podia acreditar
Viu a lua branca e linda
Um mistério que bem queria desvendar
Mas quando olhava para ela, envolta em mistério,
Simplesmente deixava-se estar...
Viu sorrisos, mil sorrisos
E o riso não pôde evitar
Lembrou a beleza, tão pura e plena
Que é ser um olhar em fusão a outro olhar
Sentiu sob os dedos
O pelo macio do cachorrinho de estimação
O rabinho a balançar
A lambida na mão!
E em cada cantinho escondido no mundo, em cada silêncio ou
até na algazarra, na gotinha de chuva que pinga no chão, foi encontrando
momentos que, diante das desventuras da vida, agiam como um bálsamo a aquietar
a alma a aflita. Detalhes que pareciam ter sido postos na estrada com a
exclusiva intenção de trazer um sopro de ar a quem traz a alma sufocada no
peito, provas do amor divino a estes simples mortais que complicam tanto a
própria vida que esquecem como é simples viver...
E olhou para o céu – se pintou de azul,
Sentiu o cheiro do vento – de verde, de flor
E andou pelas ruas a fotografar
Lentes tão profundas – o seu próprio olhar...
Viu um riso de criança, respirou o restinho de sol do fim de
tarde e seguiu andando, cantarolando por dentro uma canção que gostava...
sábado, 9 de março de 2013
graziella
Quando a cunhada gritou pelo seu nome, nem imaginava o que poderia ser.
Talvez fosse pra ajudar no almoço, temperar o feijão ou provar o sal da carne
que sempre lhe era servida fria a sal, consequências da hipertensão que a idade
avançada fazia agravar. Em plena terça-feira, ué, só podia ser isso.
"Já vai, já vai!"
Chegou na cozinha da casa e estranhando o chamado não vir de lá, foi
indo pra porta da sala. E quando viu, ele estava lá, quase irreconhecível
depois de tantos anos. Mas quando o olho bateu no seu, o arrepio na espinha fez
qualquer sombra de dúvida se dissipar. Aquilo lá que sentia, resquícios dos 18
anos que viveram juntos, ainda fazia as pernas bambearem e o coração querer
bater mais apressado. Mas não batia não. Tinha aprendido a adormecer o danado
do sentimento que tanto lhe fizera sofrer de alma, e de corpo também. Lembrava
dos vergões arroxeados que aquelas mãos tatuavam em sua pele mais moça, de seu
feio reflexo no espelho, os olhos inchados do choro ininterrupto daqueles
dias... Enquanto via Antônio entrar, as imagens daquilo que passara lhe vinham
à mente feito um filme daqueles em preto e branco em videocassete, como se
fosse não mais que telespectadora daquela história, um passado tão triste e
distante que preferia fingir não ter vivido.
***
Não aguentava mais de tanta saudade. De manhã, quando fora ao mercado,
mais uma comadre lhe perguntara pelo marido, que tinha ido pro Sul do país já
iam completar três anos, e que desde então mal mandara notícias de como andava
a vida lá por São Paulo.
Cada vez que alguém lhe perguntava por Antônio ela sentia um aperto
enorme no peito, uma vontade escandalosa de ter seu homem por perto, de fazer
os sete filhos terem a felicidade de crescer tendo a figura paterna presente. A
vizinha da frente vivia dizendo: "Eita, Graziella! Olha que criar filho
homem sem pai por perto num dá certo. O menino aviada mesmo, tu abre o
olho!".
Foi então que, juntando a saudade com a encheção de saco da vizinhança,
acabou por decidir ir embora: vendeu tudo e mandou-se pra São Paulo atrás de
Antônio, ela e três das crianças. As outras deixou com os familiares no Ceará,
na promessa de ir buscar em breve, tão logo a vida por lá se aprumasse. Quando
chegou na rodoviária depois de dias de estrada poeirenta, achou que ia
encontrar um sorriso feliz e um abraço daqueles que só Antônio sabia dar,
entretanto o que viu à sua espera foi uma figura fria, que lhe carregou as
malas entre meias palavras e monossílabos proferidos em resposta às perguntas
que ela, entusiasmada com a grandeza da capital, lhe fazia ininterruptamente
durante o caminho até o lugar que ele havia arrumado pra ficarem: uma casinha
no interior do estado, até boazinha.
Mas boa mesmo, a vida não era não. Viviam com dificuldade, ela costurando
pra fora e ele trabalhando de pedreiro onde dava. Mas ia vivendo, ao menos
tinha o marido do lado. Só que aí um dia Antônio chegou embriagado em casa,
falando alto, xingando as crianças, uma brabeza só. Aquele ali num era seu
homem não, não podia ser. Quando ela tentou acalmar o marido, o traste deu-lhe
na cara, e vendo-a chorar de dor puxou-lhe os cabelos e a arrastou até quarto.
A fez cumprir os deveres de esposa entre xingamentos e bofetadas que menos
doíam que ouvir seus pequenos batendo na porta do quarto, berrando pela mãe. Desde então, sua vida virou um inferno.
Trabalhava que nem doida durante o dia:
casa, comida, crianças e encomendas de costura. À noite, as surras de Antônio,
quase sempre bêbado, lhe faziam chorar feito criança. Vez ou outra ele, lúcido,
lhe pedia desculpas e prometia que ia largar o vício. Ela coração mole,
perdoava e vivia feliz da vida umas duas, três semanas, aí ele aparecia
embriagado novamente e ela se desfazia em lágrimas.
Certo dia uma mulher morena veio à sua casa, e vendo as manchas que
Graziella trazia na pele, adivinhou a situação. Dizia-se ex de Antônio, tinha
passado pela mesma situação que ela há tempos atrás, naquela mesma casa em que
agora ela estava. Lhe aconselhou a deixar o homem que aquilo não era vida que
prestasse, mas ela nem ligou.
Tempos depois Antônio chegou em casa dizendo que ia passar uns tempos no
Ceará: ver os parentes, matar a saudade da terra... Nunca mais voltou.
O tempo foi passando sem cartas nem cartões de Antônio, e Graziella suando
sangue pra criar os filhos sozinha, até que o Carlos colou na dela. Um negrão
alto, daqueles pra ninguém botar defeito. E queria casar com ela, criar os
filhos dela. Acabaram se amigando. E ela apaixonou-se aos poucos por ele,
encontrou um pouquinho de paz. Devagarzinho foram construindo a vida: ela
mandou buscar as outras crianças no Ceará, os filhos menores já chamavam Carlos de
pai... Conseguiu ser feliz. Foi algumas vezes na terra natal, viu os parentes,
abraçou os amigos e preferiu fingir que Antônio não existia.
Agora, aposentada, vida mais tranquila, os filhos já grandes queriam
notícia do pai de verdade, e tamanha foi a insistência deles que ela acabou por
pegar um avião pro Ceará. Tinha ao menos que descobrir se a criatura não tinha
batido as botas, mostrar a foto dos filhos pra ele, ver se a cara do infeliz ao
menos tremia...
***
Olhando pela janelinha da aeronave, ela desenterrava um filme que há
muito não via, e só interrompeu a sessão quando a voz da moça soou pelos
autofalantes. Apertou o cinto, respirou fundo e pediu a Deus que a ajudasse no
que ia fazer. Adorava estar no Ceará de novo, mas de todo jeito aquilo lhe
reabria feridas na alma que doíam demais pra serem ignoradas...
Enfim o avião parou, e ela teve de se levantar. Desafivelou o cinto,
refez o rabo de cavalo e esticou as dobrinhas do vestido vermelho e preto, o
seu preferido. Ajeitou os óculos, pegou a bolsa e entrou no túnel. Ainda eram 4
da manhã e do lado de fora do aeroporto o sol ainda não se via, mas o céu já
era clarinho, clarinho.
De repente, ficou feliz: ia ver de novo o sol nascer na terra do sol.
(...)
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