sexta-feira, 5 de julho de 2019

Inflorescências

As revoluções, para serem válidas e vivas, não precisam ser grandes.
Não começam visíveis.
Podem prescindir da multidão e serem verdade.
Não são grito, fato ou palco toda vez : faixas são dispensáveis, assim como cartazes e manchetes vibrantes não precisam vir toda vez.

Algumas são lentas, sóbrias.
Podem vir da força calma da brisa.
Podem ser raízes finas e frouxas que encorpam desapercebidas.
Fortes, lentas.

Toque. Olhar. Abraço. Presença.
Gesto. Jeito. Encontro. Oferta.

Cuidado de mãos e palavras ditas com cuidado.
Silêncios.

Existências que se ramificam e que se abrem em direção às outras, que se partilham e se acolhem.
Que se partem, repartem.
Encontram um pouco de cura em deixar-se cuidar.

Descobrem que o somatório dos vazios produz milagre e não carência.
Que distribuir-se ao outro conforma um outro eu presente em todas as partes.
Que é bem mais bonito ver nossos fragmentos de beleza cintilarem no mosaico que formamos juntos, justapostos.

Nossos buracos deixam de ser falta e se tornam linguagem.
As peças ausentes deixam de ser tão lamento e se tornam bandeira, semente.
As perguntas (dúvidas, dores) encarnam parte beleza,  parte mistério:
O jardim flori.

*

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Lavando os pincéis

Algumas pessoas, com seu jeito e tom nos ensinam a ser grandes.
Trazem o mundo e levam a infância embora.
Descortinam as crises do existir, fazem pensar.

Outras carregam o brincar em volta dos olhos e nos propõem, com seus gestos,
a expansão de um universo em que tudo caiba junto.

A infância e o caminho a seguir.
O brincar e o saber.
O sofrer, e ainda assim, o crer.

Em seus olhos, como num espelho, nossa criança sorri e acena.
Os sentidos rememoram algo dentro que acorda o movimento de sonhar.
As engrenagens da criação voltam lentamente a girar, e as cores se movem de novo no carrossel.

Tem-se vontade de ter as mãos cheias de giz de cera, de lápis de cor e pincéis de aquarela outra vez.
De deixar as cores vivas se espalharem no papel, de manchar de tinta as mãos e todas as páginas do caderno.
E depois, gastar as horas ao pé da pia lavando todo aquele estrago, olhando a tinta serpentear diluída nas águas...

Enquanto tudo escorre, um sorriso.

*

Penumbra

O sol se põe e a noite desce sobre a alma.
Mesmo que hajam estrelas, estes leves pontos cláridos, tudo é sombras aqui embaixo.
As dúvidas, aos milhares, se acumulam sobre os olhos como o pó sobre os móveis.
Tudo embaça, enturvece.
Como ousar tocar os sonhos, seguir em frente, mover a vida?
A névoa é densa, e as dores, sólidas.
As vontades, muitas.
Os desejos, vários.
As possibilidades, todas.

E por serem tantas, é nenhuma.

*

segunda-feira, 25 de março de 2019

A cadeira vazia

Olhei para o lado e te vi, mesmo ausente.
Quis buscar os teus olhos, pendurei tua imagem na mente.
Quis te contar tanta coisa!
Comentar sobre o tempo, reclamar do trânsito, dividir a angústia dos dias...
Cheguei em casa e quase ouvi o que tu dirias sempre, que deixasse os chinelos na porta, e lá os deixei.

Eu estava indo bem.

Quando embolei a camisa e estava para jogar a calça no sofá, foi que a coisa toda desandou.
Primeiro o nó, o embargo e a falta do ar.
O mundo que girou.
E foi como o colapso daquela barragem que passamos tanto tempo conversando mês passado.

Desmoronei.
Sucumbi.
Me esvaí.

Eu não tinha estruturas, e a tua ausência era chuva demais pra conter...
Fui amassando o barro, encalcando terra sobre terra até não poder mais me manter.
Disseram que eu estava sendo forte, e eu até vesti o disfarce.
Eu até pensei mesmo que estava tudo bem.
Cuidei dos preparativos, abracei quem veio nos ver.
Balbuciei alguma coisa sobre sobreviver à dor.

E eu sobrevivi.

Ela era tanta que me deixou dormente assim por quase um mês.
Passei uns dias fora, pensei em ti e na vida, e até pude agradecer.
Até voltei ao trabalho.
Mas quando cheguei em casa, e estava pra jogar a roupa amassada no sofá, foi nesse dia que tudo começou a me atingir de verdade...

As coisas poucas que dizias durante o jantar.
A companhia quieta aos programas de TV.
As palavras muitas que trocávamos em um só olhar ao ouvir uma notícia esperada.
Os resmungos sobre o preço do feijão.
Os fios de cabelo acumulados no ralo.
A pilha de roupa suja sobre a cadeira no quarto.

A roupa se foi, assim como os cabelos, os resmungos, os olhares, a companhia e as coisas.
O que me resta é prato, TV.
Alguma notícia, feijão.
Ralo.

E a cadeira vazia, metáfora de mim.

*

domingo, 17 de março de 2019

Gargalhada

Entre as mais lindas cenas que o olho é capaz de ver, tenho uma preferência por assistir aquele instante sutil em que nasce o sorriso.
Se pudéssemos colocar em câmera lenta, veríamos uma estranha energia luminosa se espalhando por entre os tecidos da face, as pequenas explosões de fluxo sanguíneo produzindo rubor, a aquarela em que se transforma aquele rosto que ri.
A composição inteira parece líquida, em uma transparência agitada pela qual se entrevê a alma.
Parece até um descuido do corpo deixar tudo assim tão às claras.
Uma fresta se abre, e nos conectamos ao outro pelo fio prateado que une os olhares.
Risonhos, os olhos miúdos se contraem pela ebulição do sorrir, e se encontram e se compreendem nesse lugar etéreo em que nos fundimos no prazer da semelhança,
do encontro.
Transcendência.
Nem mesmo os meio-sorrisos, os risos contidos pelas regras do lugar ou pela etiqueta social conseguem deter a energia que inevitavelmente fui pelos capilares mais finos da pele, como um relâmpago a se espalhar no céu.
Quando a boca não gargalha, a energia liquefaz o olhar, e a pele se faz escarlate.
É um pequeno milagre, uma semicoisa.
Mas toca o oceano do ser, e reverbera em mim em ondas infinitas.

*

domingo, 30 de dezembro de 2018

Entranhas

O mal adentra em nós como podres raízes invisíveis e fétidas porém sólidas e cheias de vigor, desfazendo as coisas belas que com esforço desenháramos.
A capilaridade de suas veias é tão fluida e forte que assusta as artérias.
O bem se cristaliza, e assustado, se dissolve.
O oxigênio dá lugar ao carbono tão rapidamente quanto os olhos piscam, muito mais velozmente que a capacidade do peito de se renovar em ar puro, muito mais denso e permanente que a pureza anterior.
A poesia que carregáramos se deixa enlamear por tão pouco pó que só podemos concluir que a sujeira toda também vem de dentro:
um rio infinito de coisas nefastas e tristes.
Assim existimos.
Assim nos descobrimos, cobertos daquilo que mais odiamos e que parece mesmo ter brotado de nós.
Nos surpreendemos desenterrando cadáveres de ingratidão quando a resposta lógica deveria ser o bem.
Enxergamos por fim a confusa e paradoxal fonte de água doce que se descobre amarga, salobra e enturvecida.
Amedrontados, olhamos bem para dentro : não se vê o fundo, mas se vê o rosto.
Na imagem, o disforme e repulsivo eu.

*

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Turnera ulmifolia

Elas não nascem nos belos jardins.
Não crescem organizadas ou enfileiradas.
Não obedecem à métrica humana que tenta sem sucesso regular a natureza.
São volumosas, e em grandes tufos, brotam do nada.
Rompem o concreto ou o solo compactado bem no meio de Novembro,
em meio ao calor e à secura.

Avessas à todas as condições climáticas.

Avessas às reclamações muitas que fazemos da política, do ônibus lotado,
do sol de rachar, da falta de amor.
Ninguém escolheria essa época para plantar flores: nossos corações cansados sequer ousariam pensar em cor alguma, que dirá amarelo!

Amarelo? E despontando em grandes tufos?
Completamente inadequado!

Entretanto, parece que ninguém disse para elas
que flores precisavam ser plantadas para florir.
E mesmo se disséssemos, não entenderiam.
Falam uma linguagem outra que só compreende o seguir em frente, o recomeço.
E mesmo depois de um Outubro esquisito e intragável, elas estão lá.
Em todas as beiradas de caminho.
Desorganizadas, e por isso mesmo maravilhosas.

Esperança teimosa que brota das sementes esquecidas na sarjeta.

Uma provocação ao olhar, um convite à alma para reexpansão dos horizontes.
"Ei! Olhe pela janela! Olhe o céu, e depois olhe para nós!"
Ao revê-las, decido que já é tempo de se pintar de amarelo de novo.
Com elas, reaprendo e redescubro o que sempre foi:
ainda é tempo de ser esperança.