Escrever é como querer fixar no papel os pigmentos voláteis da experiência, como tentar segurar no ar o perfume fugaz do instante eterno.
É desespero em capturar e reter a beleza nas mãos, essa criatura volúvel que vez ou outra concede o ar de sua graça aos nossos sentidos.
É mastigar e reprocessar o vivido sob outra ótica, reinventar a cena em outras paletas e poder escolher o foco e o contraste.
É lugar propício para matizar a dor e tornar bela a saudade.
A letra no papel é exata em criar entrelinhas e reticências, em dar espaço a tudo que vier com os olhos que a leem, em embalar juntos a concretude e o vir a ser na mesma dança.
Em justapor universos paralelos múltiplos e maravilhosos e em cunhar nas palavras um portal para revisitar as memórias, romper as dimensões.
Enquanto espalho as letras, sinto-me espalhar na eternidade.
*
quarta-feira, 4 de dezembro de 2019
terça-feira, 3 de dezembro de 2019
Teia
Se exibe na medida em que se ilude.
Se engana tanto quanto pensa que engana.
As formas e fôrmas ilusórias se confundem com o espelho :
não pode saber o que é imagem quando se fez objeto.
Os contornos da realidade se perdem no ar em mais um clique, em mais um minuto de veneração à imagem do desconhecido. De vários desconhecidos, já que a página nunca chega ao fim.
A teia não pergunta sobre a vontade de continuar em transe : não há respiro nem pausa.
Enquanto aspira profundos tragos das vidas alheias, abandona a sua própria.
Ou cria uma outra, paralela e em cores mais vivas, com enquadramento melhor...
No fim do dia, se ambas as platéias tiverem sido convencidas, terá ganho a noite.
Aos poucos nos deixamos, perdemos a alma.
*
Se engana tanto quanto pensa que engana.
As formas e fôrmas ilusórias se confundem com o espelho :
não pode saber o que é imagem quando se fez objeto.
Os contornos da realidade se perdem no ar em mais um clique, em mais um minuto de veneração à imagem do desconhecido. De vários desconhecidos, já que a página nunca chega ao fim.
A teia não pergunta sobre a vontade de continuar em transe : não há respiro nem pausa.
Enquanto aspira profundos tragos das vidas alheias, abandona a sua própria.
Ou cria uma outra, paralela e em cores mais vivas, com enquadramento melhor...
No fim do dia, se ambas as platéias tiverem sido convencidas, terá ganho a noite.
Aos poucos nos deixamos, perdemos a alma.
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quarta-feira, 13 de novembro de 2019
Lua
Escrevo para traduzir em palavras a loucura de dentro.
Teço a teia dos versos para nela deixar registros de que o caos também pode ser são.
As conexões a princípio parecem esparsas e aleatórias, as palavras soltas, vãs.
Mas continuada a trabalheira, quando os contornos ganham definição, e os versos ganham pares, e quando salpicados de rimas e pausas e ritmo, lá estou eu, inteiro.
Às vezes escancarado, numa denúncia auto-pronunciada de minha miséria e fragilidade, das minhas inconstâncias, devaneios e desvarios. Às vezes sutilmente oculto numa estória de outrem. Às vezes falando de tristeza e feiura, às vezes falando da beleza do mar. Ou da lua.
Escrevo para me lembrar de quem sou ou quem fui à cinco minutos ou à cinquenta anos, para ter um jeito de me dizer que os caminhos percorridos tinham beleza e cor, e que as escolhas foram quase todas feitas na lucidez do amor, este livre espírito em que habito.
Escrevo às vezes em desespero, e enquanto os garranchos rápidos se organizam e tomam forma e as sílabas encontram seus lugares, me encontro. Esqueço a urgência dos dias, e me lembro que é mais urgente sentir o sabor de cada um deles.
Enquanto escrevo me lembro que tenho direito de olhar o céu, de me encantar com a lua cheia e de me deixar enluarar e nadar na luz dourada. De suspirar enquanto olho fixamente para ela, como se olhasse em seus olhos. Me lembro que é permitido subir num banquinho ou num cavalete e ficar na ponta do pé só pra ver ela nascer...
A lua hoje, deitada no azul
pontilhou de luz o meu chão
abriu as portas da emoção
despertou do sono o coração
Por entre as folhas e galhos e nuvens
sorriu para mim num flerte e piscou :
eu vi seus cílios de cetim
soprarem um beijo pra mim
*
Teço a teia dos versos para nela deixar registros de que o caos também pode ser são.
As conexões a princípio parecem esparsas e aleatórias, as palavras soltas, vãs.
Mas continuada a trabalheira, quando os contornos ganham definição, e os versos ganham pares, e quando salpicados de rimas e pausas e ritmo, lá estou eu, inteiro.
Às vezes escancarado, numa denúncia auto-pronunciada de minha miséria e fragilidade, das minhas inconstâncias, devaneios e desvarios. Às vezes sutilmente oculto numa estória de outrem. Às vezes falando de tristeza e feiura, às vezes falando da beleza do mar. Ou da lua.
Escrevo para me lembrar de quem sou ou quem fui à cinco minutos ou à cinquenta anos, para ter um jeito de me dizer que os caminhos percorridos tinham beleza e cor, e que as escolhas foram quase todas feitas na lucidez do amor, este livre espírito em que habito.
Escrevo às vezes em desespero, e enquanto os garranchos rápidos se organizam e tomam forma e as sílabas encontram seus lugares, me encontro. Esqueço a urgência dos dias, e me lembro que é mais urgente sentir o sabor de cada um deles.
Enquanto escrevo me lembro que tenho direito de olhar o céu, de me encantar com a lua cheia e de me deixar enluarar e nadar na luz dourada. De suspirar enquanto olho fixamente para ela, como se olhasse em seus olhos. Me lembro que é permitido subir num banquinho ou num cavalete e ficar na ponta do pé só pra ver ela nascer...
A lua hoje, deitada no azul
pontilhou de luz o meu chão
abriu as portas da emoção
despertou do sono o coração
Por entre as folhas e galhos e nuvens
sorriu para mim num flerte e piscou :
eu vi seus cílios de cetim
soprarem um beijo pra mim
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sexta-feira, 1 de novembro de 2019
Maré
Não posso ser transparente, o rio de águas claras a correr sobre as pedras.
Minhas águas são turvas e fundas, e obscuras.
Tenho camadas.
Preciso me guardar pra mim um pouquinho, como a Monalisa e seu segredo sorridente:
Cores sóbrias e mãos sobrepostas e uma mensagem encoberta.
Nas curvas sombrias, alguma pedra onde eu possa esconder um peixe ou uma concha,
onde me guardo e aguardo.
Sob o cascalho e os seixos, o inesperado.
Gosto de ter um canto secreto para guardar um mistério que nem mesmo sei,
mas que sempre invento e reservo como sendo tudo de mais precioso em mim.
Tenho desejos.
Ei, psiu!
Tenho desejos.
Mas não faça alarde!
Me parece um tanto esquisito dizê-los, pois escapam de mim fortuitos,
donos de si e flutuantes.
E vão-se embora.
Sempre voam e vão.
Somem em minhas espumas.
Não posso ser tão transparente, nem tão clárida, tenho que ser louca.
Em minha loucura tudo cabe em mim.
Bravio que sou, até o que não me cabe de algum jeito me atravessa,
de algum jeito me conserta, a seu jeito me transforma.
*
Minhas águas são turvas e fundas, e obscuras.
Tenho camadas.
Preciso me guardar pra mim um pouquinho, como a Monalisa e seu segredo sorridente:
Cores sóbrias e mãos sobrepostas e uma mensagem encoberta.
Nas curvas sombrias, alguma pedra onde eu possa esconder um peixe ou uma concha,
onde me guardo e aguardo.
Sob o cascalho e os seixos, o inesperado.
Gosto de ter um canto secreto para guardar um mistério que nem mesmo sei,
mas que sempre invento e reservo como sendo tudo de mais precioso em mim.
Tenho desejos.
Ei, psiu!
Tenho desejos.
Mas não faça alarde!
Me parece um tanto esquisito dizê-los, pois escapam de mim fortuitos,
donos de si e flutuantes.
E vão-se embora.
Sempre voam e vão.
Somem em minhas espumas.
Não posso ser tão transparente, nem tão clárida, tenho que ser louca.
Em minha loucura tudo cabe em mim.
Bravio que sou, até o que não me cabe de algum jeito me atravessa,
de algum jeito me conserta, a seu jeito me transforma.
*
quinta-feira, 31 de outubro de 2019
Mau humor
Ácido e náusea feitos de tédio.
Composto de notas dissonantes e todos os sons mais feios.
É de matéria densa e pegajosa : se engancha nas tripas.
Contorce o estômago e corrói o fígado.
Desunera o sangue e amarela os olhos.
Deixa a pele sebenta.
Fede.
Azeda o leite e arruína o arroz.
Enverga o esqueleto.
Escorre lento sobre tudo e respinga ao redor suas gotas indesejadas.
É sólido mas se espalha, rastejante.
Enquanto seus tentáculos se expandem e se contraem, tenho ânsia de vômito.
O danado ainda ronrona, como se merecesse carinho, e ai de mim se não o satisfaço.
Toco o invólucro gelatinoso e em lenta agonia deslizo os dedos.
O ácido estomacal sobe involuntariamente à boca : engulo.
A teia agora me enlaça e adere ao meu corpo, e já não podemos nos dissociar.
Tomo a fera em meus braços e a oculto debaixo da blusa:
prefiro que não lhe vejam os dentes, pois parecem muito com os meus.
*
Composto de notas dissonantes e todos os sons mais feios.
É de matéria densa e pegajosa : se engancha nas tripas.
Contorce o estômago e corrói o fígado.
Desunera o sangue e amarela os olhos.
Deixa a pele sebenta.
Fede.
Azeda o leite e arruína o arroz.
Enverga o esqueleto.
Escorre lento sobre tudo e respinga ao redor suas gotas indesejadas.
É sólido mas se espalha, rastejante.
Enquanto seus tentáculos se expandem e se contraem, tenho ânsia de vômito.
O danado ainda ronrona, como se merecesse carinho, e ai de mim se não o satisfaço.
Toco o invólucro gelatinoso e em lenta agonia deslizo os dedos.
O ácido estomacal sobe involuntariamente à boca : engulo.
A teia agora me enlaça e adere ao meu corpo, e já não podemos nos dissociar.
Tomo a fera em meus braços e a oculto debaixo da blusa:
prefiro que não lhe vejam os dentes, pois parecem muito com os meus.
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sexta-feira, 25 de outubro de 2019
Azul - brilhante
É tempo da estiagem.
Tempo das reservas.
As lágrimas permanecem dentro para não gastar a água e a vida estocadas.
Por fora a superfície brilha, com sua blindagem de cetim intacta:
Foi para agora que teceram em nós a casca espessa.
O que está dentro não deve sair.
Não há do lado de fora nada que deva entrar.
O céu exibe um azul escandaloso e penetrante, e quanto mais a luz se expande e se intensifica, mais caem as folhas e mais se retrai a pupila.
É tanto sol que constrange a pele.
O desfile do astro-rei desgasta e produz dormências.
Empurra para a inevitável nudez dos galhos, para a espera do recomeçar dos ciclos.
Emudece e provoca recolhimento.
Suscita à quietude, à reflexão...
Induz o coma para preservar a vida.
Em dias ressequidos, a luz do sol é desejo de chuva...
Para quem espera a nuvem, o azul-brilhante é a cor da tristeza.
*
Tempo das reservas.
As lágrimas permanecem dentro para não gastar a água e a vida estocadas.
Por fora a superfície brilha, com sua blindagem de cetim intacta:
Foi para agora que teceram em nós a casca espessa.
O que está dentro não deve sair.
Não há do lado de fora nada que deva entrar.
O céu exibe um azul escandaloso e penetrante, e quanto mais a luz se expande e se intensifica, mais caem as folhas e mais se retrai a pupila.
É tanto sol que constrange a pele.
O desfile do astro-rei desgasta e produz dormências.
Empurra para a inevitável nudez dos galhos, para a espera do recomeçar dos ciclos.
Emudece e provoca recolhimento.
Suscita à quietude, à reflexão...
Induz o coma para preservar a vida.
Em dias ressequidos, a luz do sol é desejo de chuva...
Para quem espera a nuvem, o azul-brilhante é a cor da tristeza.
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terça-feira, 22 de outubro de 2019
Fadiga
Estou cansado das minhas palavras.
Cansado de ouví-las flutuar da minha boca e tocar seus ouvidos em vão.
Cansado de tecer as teias dos versos para neles captar alguma beleza repetida que você cansou de ver.
Para que servem os seus olhos?
Não é o mesmo o som que chega aos seus ouvidos?
Que janela escolheu para se ver?
Me ouço desfiando a mesma trama, sobre a mesma lógica e sob o mesmo céu, e antes que eu termine a primeira frase, como quem conhece o futuro, já me prevejo tristemente arrependido pela decisão de separar os lábios e esboçar algum som.
Eu devia ser silêncio.
Mais sábio, mais tenro.
Sustentar os ares do mistério didaticamente.
Retirar os óculos do rosto, suspirar e fingir que desisto, que entendo.
Deixar as bobagens a ver navios, devidamente sem resposta.
Me colocar em seu lugar, imaginar todas as causas, causos e acasos que lhe produziram e que te puseram pra olhar a vida daí.
Cascavilhar alguma última paciência, sustentar a face calma.
Sorrir e acenar.
Piscar lentamente os olhos e balançar a cabeça num sorriso amarelo.
Deixar passar a piada e a vida.
Deixar que ela passe em cima de você.
Deixar que a sua cara se espatife na primeira parede e que os estilhaços pontiagudos da sua língua atinjam em cheio o seu pé.
A dor então virá pra criar uma fresta na medida exata da luz que precisa entrar.
Enquanto faz careta e pula num pé só procurando alívio, descobrirá as sombras de dentro. Se assombrará com as feiúras que guardou e se sentirá pequeno, inacabado.
Com a dor, virá espaço para abrigar o mundo inteiro em amor.
E eu não terei mais que me cansar.
*
Cansado de ouví-las flutuar da minha boca e tocar seus ouvidos em vão.
Cansado de tecer as teias dos versos para neles captar alguma beleza repetida que você cansou de ver.
Para que servem os seus olhos?
Não é o mesmo o som que chega aos seus ouvidos?
Que janela escolheu para se ver?
Me ouço desfiando a mesma trama, sobre a mesma lógica e sob o mesmo céu, e antes que eu termine a primeira frase, como quem conhece o futuro, já me prevejo tristemente arrependido pela decisão de separar os lábios e esboçar algum som.
Eu devia ser silêncio.
Mais sábio, mais tenro.
Sustentar os ares do mistério didaticamente.
Retirar os óculos do rosto, suspirar e fingir que desisto, que entendo.
Deixar as bobagens a ver navios, devidamente sem resposta.
Me colocar em seu lugar, imaginar todas as causas, causos e acasos que lhe produziram e que te puseram pra olhar a vida daí.
Cascavilhar alguma última paciência, sustentar a face calma.
Sorrir e acenar.
Piscar lentamente os olhos e balançar a cabeça num sorriso amarelo.
Deixar passar a piada e a vida.
Deixar que ela passe em cima de você.
Deixar que a sua cara se espatife na primeira parede e que os estilhaços pontiagudos da sua língua atinjam em cheio o seu pé.
A dor então virá pra criar uma fresta na medida exata da luz que precisa entrar.
Enquanto faz careta e pula num pé só procurando alívio, descobrirá as sombras de dentro. Se assombrará com as feiúras que guardou e se sentirá pequeno, inacabado.
Com a dor, virá espaço para abrigar o mundo inteiro em amor.
E eu não terei mais que me cansar.
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