Ex pera
Ex aspera
Começo de era
Você
Quem dera
Ainda existe gente
Que troca abraços gratuitos
Que cria laços indissolutos
Que ama fora de seus redutos
Ainda existe essa gente
Que se bota a forçar as cordas
Que rompe limites e bordas
Que costura afetos nos fios das notas
Ainda existe este olho-coragem
Que se mantêm no meu
Que me traz à margem
Que me vê quem sou
Que ainda assim fica
Que ainda assim se dá
Que dá de ombros pros meus desajustes
Que me vê integral
Humana e ambivalente
Volúvel e fugidia
Insegura
De carne
Ainda assim restam olhos-laços
Que enxergam tudo isso
Só como ser gente
Só como ser parte
Os desvios da mente
e as estrias do corpo
As inconsistências
e as belezas
Todos os fragmentos
de um pacote inteiro de vida.
sem propor culpa
ofertam presença e mais nada.
(isto é graça que basta)
***
Os fazeres com que ocupamos as mãos
nos transformam
Traços, rabiscos, agulhas e linhas
Colheres, réguas, compassos
Níveis de bolha e pá
Me constituem
Trocam fagulhas com meu dna
Flertam com os genes sem no entanto
neles se expressarem
Ou talvez se expressem
E nossos microscópios ainda não sejam
potentes o bastante para traduzir estas
belezas herdadas em mistério
Em silêncio
Em ato repetido
Em ritual cotidiano
Características adquiridas
entre os bolos de milho e as conversas da tarde
Entre o mingau de carimã e o boa noite
Bordadas em minha pele feito as colchas
de restiliê
Pelas frestas das quais me tornei
permeável à você, senhora
Minha amiga
Meu par
Minha avó.
* * *
sempre haverá
encontro nas ausências
milagre nas carências
pão para a alma
sopro
oculto em meus buracos,
Deus.
me habitará
como sol atrás do monte
aguardando que eu me apronte
luz nas retinas
vento
*