quarta-feira, 26 de junho de 2019

Lavando os pincéis

Algumas pessoas, com seu jeito e tom nos ensinam a ser grandes.
Trazem o mundo e levam a infância embora.
Descortinam as crises do existir, fazem pensar.

Outras carregam o brincar em volta dos olhos e nos propõem, com seus gestos,
a expansão de um universo em que tudo caiba junto.

A infância e o caminho a seguir.
O brincar e o saber.
O sofrer, e ainda assim, o crer.

Em seus olhos, como num espelho, nossa criança sorri e acena.
Os sentidos rememoram algo dentro que acorda o movimento de sonhar.
As engrenagens da criação voltam lentamente a girar, e as cores se movem de novo no carrossel.

Tem-se vontade de ter as mãos cheias de giz de cera, de lápis de cor e pincéis de aquarela outra vez.
De deixar as cores vivas se espalharem no papel, de manchar de tinta as mãos e todas as páginas do caderno.
E depois, gastar as horas ao pé da pia lavando todo aquele estrago, olhando a tinta serpentear diluída nas águas...

Enquanto tudo escorre, um sorriso.

*

Penumbra

O sol se põe e a noite desce sobre a alma.
Mesmo que hajam estrelas, estes leves pontos cláridos, tudo é sombras aqui embaixo.
As dúvidas, aos milhares, se acumulam sobre os olhos como o pó sobre os móveis.
Tudo embaça, enturvece.
Como ousar tocar os sonhos, seguir em frente, mover a vida?
A névoa é densa, e as dores, sólidas.
As vontades, muitas.
Os desejos, vários.
As possibilidades, todas.

E por serem tantas, é nenhuma.

*

segunda-feira, 25 de março de 2019

A cadeira vazia

Olhei para o lado e te vi, mesmo ausente.
Quis buscar os teus olhos, pendurei tua imagem na mente.
Quis te contar tanta coisa!
Comentar sobre o tempo, reclamar do trânsito, dividir a angústia dos dias...
Cheguei em casa e quase ouvi o que tu dirias sempre, que deixasse os chinelos na porta, e lá os deixei.

Eu estava indo bem.

Quando embolei a camisa e estava para jogar a calça no sofá, foi que a coisa toda desandou.
Primeiro o nó, o embargo e a falta do ar.
O mundo que girou.
E foi como o colapso daquela barragem que passamos tanto tempo conversando mês passado.

Desmoronei.
Sucumbi.
Me esvaí.

Eu não tinha estruturas, e a tua ausência era chuva demais pra conter...
Fui amassando o barro, encalcando terra sobre terra até não poder mais me manter.
Disseram que eu estava sendo forte, e eu até vesti o disfarce.
Eu até pensei mesmo que estava tudo bem.
Cuidei dos preparativos, abracei quem veio nos ver.
Balbuciei alguma coisa sobre sobreviver à dor.

E eu sobrevivi.

Ela era tanta que me deixou dormente assim por quase um mês.
Passei uns dias fora, pensei em ti e na vida, e até pude agradecer.
Até voltei ao trabalho.
Mas quando cheguei em casa, e estava pra jogar a roupa amassada no sofá, foi nesse dia que tudo começou a me atingir de verdade...

As coisas poucas que dizias durante o jantar.
A companhia quieta aos programas de TV.
As palavras muitas que trocávamos em um só olhar ao ouvir uma notícia esperada.
Os resmungos sobre o preço do feijão.
Os fios de cabelo acumulados no ralo.
A pilha de roupa suja sobre a cadeira no quarto.

A roupa se foi, assim como os cabelos, os resmungos, os olhares, a companhia e as coisas.
O que me resta é prato, TV.
Alguma notícia, feijão.
Ralo.

E a cadeira vazia, metáfora de mim.

*

domingo, 17 de março de 2019

Gargalhada

Entre as mais lindas cenas que o olho é capaz de ver, tenho uma preferência por assistir aquele instante sutil em que nasce o sorriso.
Se pudéssemos colocar em câmera lenta, veríamos uma estranha energia luminosa se espalhando por entre os tecidos da face, as pequenas explosões de fluxo sanguíneo produzindo rubor, a aquarela em que se transforma aquele rosto que ri.
A composição inteira parece líquida, em uma transparência agitada pela qual se entrevê a alma.
Parece até um descuido do corpo deixar tudo assim tão às claras.
Uma fresta se abre, e nos conectamos ao outro pelo fio prateado que une os olhares.
Risonhos, os olhos miúdos se contraem pela ebulição do sorrir, e se encontram e se compreendem nesse lugar etéreo em que nos fundimos no prazer da semelhança,
do encontro.
Transcendência.
Nem mesmo os meio-sorrisos, os risos contidos pelas regras do lugar ou pela etiqueta social conseguem deter a energia que inevitavelmente fui pelos capilares mais finos da pele, como um relâmpago a se espalhar no céu.
Quando a boca não gargalha, a energia liquefaz o olhar, e a pele se faz escarlate.
É um pequeno milagre, uma semicoisa.
Mas toca o oceano do ser, e reverbera em mim em ondas infinitas.

*

domingo, 30 de dezembro de 2018

Entranhas

O mal adentra em nós como podres raízes invisíveis e fétidas porém sólidas e cheias de vigor, desfazendo as coisas belas que com esforço desenháramos.
A capilaridade de suas veias é tão fluida e forte que assusta as artérias.
O bem se cristaliza, e assustado, se dissolve.
O oxigênio dá lugar ao carbono tão rapidamente quanto os olhos piscam, muito mais velozmente que a capacidade do peito de se renovar em ar puro, muito mais denso e permanente que a pureza anterior.
A poesia que carregáramos se deixa enlamear por tão pouco pó que só podemos concluir que a sujeira toda também vem de dentro:
um rio infinito de coisas nefastas e tristes.
Assim existimos.
Assim nos descobrimos, cobertos daquilo que mais odiamos e que parece mesmo ter brotado de nós.
Nos surpreendemos desenterrando cadáveres de ingratidão quando a resposta lógica deveria ser o bem.
Enxergamos por fim a confusa e paradoxal fonte de água doce que se descobre amarga, salobra e enturvecida.
Amedrontados, olhamos bem para dentro : não se vê o fundo, mas se vê o rosto.
Na imagem, o disforme e repulsivo eu.

*

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Turnera ulmifolia

Elas não nascem nos belos jardins.
Não crescem organizadas ou enfileiradas.
Não obedecem à métrica humana que tenta sem sucesso regular a natureza.
São volumosas, e em grandes tufos, brotam do nada.
Rompem o concreto ou o solo compactado bem no meio de Novembro,
em meio ao calor e à secura.

Avessas à todas as condições climáticas.

Avessas às reclamações muitas que fazemos da política, do ônibus lotado,
do sol de rachar, da falta de amor.
Ninguém escolheria essa época para plantar flores: nossos corações cansados sequer ousariam pensar em cor alguma, que dirá amarelo!

Amarelo? E despontando em grandes tufos?
Completamente inadequado!

Entretanto, parece que ninguém disse para elas
que flores precisavam ser plantadas para florir.
E mesmo se disséssemos, não entenderiam.
Falam uma linguagem outra que só compreende o seguir em frente, o recomeço.
E mesmo depois de um Outubro esquisito e intragável, elas estão lá.
Em todas as beiradas de caminho.
Desorganizadas, e por isso mesmo maravilhosas.

Esperança teimosa que brota das sementes esquecidas na sarjeta.

Uma provocação ao olhar, um convite à alma para reexpansão dos horizontes.
"Ei! Olhe pela janela! Olhe o céu, e depois olhe para nós!"
Ao revê-las, decido que já é tempo de se pintar de amarelo de novo.
Com elas, reaprendo e redescubro o que sempre foi:
ainda é tempo de ser esperança.


Vinte e nove de outubro

No dia seguinte, a manhã estava muda.
Assim como as ruas, os carros, as bocas.
O ar, antes leve e colorido, parecia denso, cinza.
O ônibus se arrastava lenta e pesadamente, concordando que não havia motivos para pressa...
Correr para quê?
Mover-se para onde?
O peso de 56 milhões de dedos recaía sobre todas as cabeças, roubava o oxigênio das veias e o brilho dos olhares.
Rostos apáticos, pasmados, desolados.
Corações exaustos da luta.
Forças esvaídas numa guerra perdida muito antes da batalha começar.
Muitos vestíamos preto inconscientemente.
Disposição nenhuma havia para tocar no assunto.
As pessoas eram todas um mar de corpos desmaiados e olhares vageando no espaço vazio.
Era tão estranho que parecia não ser real.
Era um NÃO em letras garrafais.
Era tão duro e grave que fingíamos que tinha sido só um sonho ruim.
Tudo era susto.
Tudo era luto.
Éramos todos silêncio.