quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Miopia

Eu te amo.
Amo os fios desgrenhados e ruivos que teimam em aflorar em sua barba densa.
Amo este perfume indizível que se esconde entre seus ombros e nuca.
Amo nossa dança precisa e imprevisível, cada passo.

Amo retirar os óculos do seu rosto e colocar sobre a escrivaninha.
Amo os momentos em que eles de nada servem.

Amo os seus olhos nus sob o fim da tarde, atravessados de luz, líquidos.
Amo nossos encontros míopes, a cena borrada ao fundo,
o mundo inteiro que termina em nós.

*

domingo, 4 de agosto de 2019

Quereres

Não quero viver como alguém que rearranja os móveis , esperando assim refazer a dinâmica da vida.
Eu é que me movo.
Me movo dos fluxos habituais, movo meus olhos cansados para outras vistas, outros horizontes.
Deixo a brisa me despetalar e me desnudar.
Movo meu corpo engessado do lugar, rompendo a casca de poeira que se acumulou em minha alma imóvel.

Quero vida.
Quero a dinâmica do mover-se novamente.

Flutuar entre as certezas para então acolher o incerto.
Liberdade para formular hipóteses, tranquilidade para vê-las refutadas pela vida...
Serenidade nos olhos e nas mãos.

*

sábado, 3 de agosto de 2019

Reconciliação

Um corpo que dança
sorri, criança.
Traduz em gesto
antiga lembrança:
sorvete, chiclete, balão, picolé

Devolve aos olhos a cadência
do peito extingue a carência
e se vai a dor :
de amor, de espinhaço ou de dedão do pé

A alma flutua num rodopio
os sons lhe provocam algum arrepio
e embalam um jeito bonito de ser

No suor exorciza as horas vazias
esvazia a mente das coisas sombrias
e surge alguém novo, capaz de se ver

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Agosto

Vento
que move o farfalhar
faz a folha dançar
traz o rufar dos tambores até a concha - suspiro de mar

Vento em folha
o ar preenchido das notas graves
da surdez dos tambores a sons mais suaves
encontro de encanto esse teu sibilar

Vento
o que cantas não sei se é um triste lamento
ou se os tons anunciam um novo momento
à gosto dos sonhos, algum despertar ?

Vento e folha :
tormento ou dança ?
harmonia ou castigo ?
batalha ou beleza ?

* * *

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Inflorescências

As revoluções, para serem válidas e vivas, não precisam ser grandes.
Não começam visíveis.
Podem prescindir da multidão e serem verdade.
Não são grito, fato ou palco toda vez : faixas são dispensáveis, assim como cartazes e manchetes vibrantes não precisam vir toda vez.

Algumas são lentas, sóbrias.
Podem vir da força calma da brisa.
Podem ser raízes finas e frouxas que encorpam desapercebidas.
Fortes, lentas.

Toque. Olhar. Abraço. Presença.
Gesto. Jeito. Encontro. Oferta.

Cuidado de mãos e palavras ditas com cuidado.
Silêncios.

Existências que se ramificam e que se abrem em direção às outras, que se partilham e se acolhem.
Que se partem, repartem.
Encontram um pouco de cura em deixar-se cuidar.

Descobrem que o somatório dos vazios produz milagre e não carência.
Que distribuir-se ao outro conforma um outro eu presente em todas as partes.
Que é bem mais bonito ver nossos fragmentos de beleza cintilarem no mosaico que formamos juntos, justapostos.

Nossos buracos deixam de ser falta e se tornam linguagem.
As peças ausentes deixam de ser tão lamento e se tornam bandeira, semente.
As perguntas (dúvidas, dores) encarnam parte beleza,  parte mistério:
O jardim flori.

*

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Lavando os pincéis

Algumas pessoas, com seu jeito e tom nos ensinam a ser grandes.
Trazem o mundo e levam a infância embora.
Descortinam as crises do existir, fazem pensar.

Outras carregam o brincar em volta dos olhos e nos propõem, com seus gestos,
a expansão de um universo em que tudo caiba junto.

A infância e o caminho a seguir.
O brincar e o saber.
O sofrer, e ainda assim, o crer.

Em seus olhos, como num espelho, nossa criança sorri e acena.
Os sentidos rememoram algo dentro que acorda o movimento de sonhar.
As engrenagens da criação voltam lentamente a girar, e as cores se movem de novo no carrossel.

Tem-se vontade de ter as mãos cheias de giz de cera, de lápis de cor e pincéis de aquarela outra vez.
De deixar as cores vivas se espalharem no papel, de manchar de tinta as mãos e todas as páginas do caderno.
E depois, gastar as horas ao pé da pia lavando todo aquele estrago, olhando a tinta serpentear diluída nas águas...

Enquanto tudo escorre, um sorriso.

*

Penumbra

O sol se põe e a noite desce sobre a alma.
Mesmo que hajam estrelas, estes leves pontos cláridos, tudo é sombras aqui embaixo.
As dúvidas, aos milhares, se acumulam sobre os olhos como o pó sobre os móveis.
Tudo embaça, enturvece.
Como ousar tocar os sonhos, seguir em frente, mover a vida?
A névoa é densa, e as dores, sólidas.
As vontades, muitas.
Os desejos, vários.
As possibilidades, todas.

E por serem tantas, é nenhuma.

*