quarta-feira, 22 de abril de 2020

O anúncio de uma flor

( Queria te fazer um filme mas um filme não sei fazer
por isso te escrevo um poema para não deixar de dizer ... )

Abriu-se minha flor de Abril
e nisto é que o mundo floriu
seu olhar que derrete o frio
põe as cores no cinza mais vil

Agarrada no seu sorriso
está a linha do horizonte
de covinha a covinha uma fonte
quando ri é o sol  por detrás do monte

Em seus cabelos infinitos
quero eu me pendurar
pra tecer a teia da vida
pra gente poder se encontrar

Alguém viu?
Abriu-se minha flor de Abril!
Como pode uma flor ser também sol?
É segredo seu encanto, há de ser girassol


*
(para minha amiga Sarah, pelos seus 24 anos)


quinta-feira, 16 de abril de 2020

O não ter

É curioso este estado de não ter que.
Os dias me atravessam sem que eu os atravesse, escorrem por cima de mim.
Tudo assim suspenso no ar e estruturado pelo grande e invisível ponto de interrogação.

Não tenho que acordar cedo, então não tenho que ir logo dormir.
Não tenho que sair, então não tenho que me arrumar para.
Não tenho que parecer feliz, e aí me parece que posso ser triste.
Como sempre fui, de quando em vez.

Mas a coisa mais curiosa são as contradições que brotam pela ausência de ter que.

Não tenho que cuidar do jardim, e lá estou eu cuidando dele todos os dias.
Não tenho a obrigação de ler milhões de livros, e eis-me aqui num período de tanta leitura que lembra minha adolescência.
Tenho todo o tempo que eu quisesse para flutuar nas redes sociais, mas não as quero, e flutuo em mim.

Quero estar invisível no meu casulo. Crescendo por dentro sem pressa de romper.
Ignorando de propósito a imagem feia e a gosma que possa ser visível de um processo que é invisível e meu. Mas que também é de tantos outros, é do mundo.
Agora podemos todos hibernar.

O que de sólido surgiu no meio do não ter que, é que me parece agora haver algum tempo para ser. Adoeço ou adolesço?
Ou adormeço?

*

quinta-feira, 2 de abril de 2020

A menina

Tenho gastado tantas horas a flutuar em mim mesma que abriu-se em mim um buraco no meio do estômago. Acordei e ele estava lá, o estrago feito e uma dor que me queimava - como se a menina de dentro tivesse tido a brilhante ideia de acender uma fogueira pra afastar o tédio e a escuridão a que lhe submeti. Ora como se.

O fogo cresceu, espalhou, e me fez saber o que é sentir a palavra dor  na sua versão encarnada, invadindo todos os espaços e arrancando a raiz do pensamento.
Por alguns minutos, vivi a palavra e ela habitou em mim, com suas três letras afiadas:
dor. dor. dor.

Passado o susto e reestabelecida a pressão sanguínea, o fato que restou foi o de que agora há uma saída para a clausura da menina.
De lá ela vê o céu, se espreme toda pela fresta e sai pra passear.
Me olha como se nada tivesse feito e sem sombra sequer de culpa.
Anda feliz da vida e até planeja transformar o buraco que fez em mim num jardim de inverno.

Quanto a mim, tomo omeprazol e como brócolis como se não houvesse amanhã.


*

domingo, 29 de março de 2020

Pouso

Nada mais leve há que uma libélula pousada no céu azul.
Asas imóveis e transparentes, sustentando a beleza fugaz de uma vida breve, de um ciclo em que não há espaços para apegos maiores que o corpo em que se habita.
Equilíbrio de quem é frágil, mas que por isso mesmo levita.

A minha libélula deixou-se ver por dois minutos quase inteiros.
Tudo o que ela pôde me dar foi aquela beleza que me atravessou.
Quis tirar dela uma fotografia, fazê-la ficar fixada aqui ainda mais um pouco...
Por querer capturá-la, a perdi.

Minha libélula partiu.


*

Limbo

Que será de nós?
Animais que constroem em pedra selvagem um abrigo da força das próprias mãos
Imbecis a repicar a Terra, aumentando a distância entre irmãos
Ilegais mastigando aço e aspirando ouro como fossem ar e pão

Que será dos nós?
Amarrados em nossas agendas arrastando grilhões
Imbricados em vários nadas que valem milhões
Irritados com a correria e o medo do não

Que seremos nós
Quando o tempo parar e a luz acabar e o medo bater
Se silêncio assombrar e vier devorar você
E o futuro com suas quimeras não acontecer?

Que será de nós?
Que será dos nós :
Que Ser?


*

quarta-feira, 4 de março de 2020

Poema do meio dia

m e l a n c o l i a
o mel que nutre a magia
a mão que estanca a alegria
o espaço entre a cor e a agonia

m e l a n c o l i a
é tudo que anda lento
um mergulho fundo no momento
o portão pra escapar do desalento

m e l a n c o l i a
uma parada no meio do dia
pra entender porque tudo corria
enxergar algo que não se via

m e l a n c o l i a
da vida uma lente de aumento
o silêncio depois do tormento
mastigar e engolir pensamento

*

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Chuva

Sentimos a sua falta.
Eu, os galhos ressequidos do Ipê, cada fissura dos fundos de vale e cada folha.
Estávamos numa saudade tão imensa de te ver que parecíamos não lembrar o que faltava em nós.
Adormecidos, nos arrastávamos para o futuro sem pressa, suportando a poeira e o ar ressequido como quem já não se admira de nada.

Nos inundava o vazio, com seus braços infinitos.

As janelas dos carros, das casas e dos olhos já não podiam ser de cristal e luz quando a sua ausência dava lugar à vista embaçada de pó.
O vazio era imenso!
Mas você é tão maior!

Ouço o rugir do encontro das nuvens: ferozes e iluminadas, rasgando o céu gloriosas são anunciação da sua chegada.
Como um som que devora o mundo inteiro, você se aproxima depressa, invade e acorda os ouvidos como mais ninguém é capaz de fazer.
Todo o meu corpo está alerta, te reconhece e se vê em suas gotas.
Ouço o festival das milhões de gotas caindo sobre as folhas, e finalmente você está aqui.

Meus ouvidos agora são a música composta pelas bicas, vozes de um coral numeroso vibrando no ar, e meus olhos se fecham para ouvir.
Todas as superfícies que você toca se tornam instrumentos, e ressoam a seu modo a alegria da sua chegada... 
Sobre as telhas de barro soa o burburinho que dá suporte às melodias... às quedas d'água que cantam respingos nas poças, aos lençóis que escorrem sobre as paredes, ao fio de água que escorre sobre um vaso de vidro e é como a flauta doce a decorar o ar...

Abro meus olhos agora nítidos, e os pássaros cantam, como quem te vê.


*