domingo, 22 de maio de 2022

Origem

Abres as chaves dos mistérios
recuas o céu e arrastas 
as montanhas das dúvidas

Teu espírito
nos carcarás
nos gaviões carijós
e nas galinhas

Canta nas águas 
que escorrem da chuva
canta nos beirais e muros
reverbera fundo em minha alma

Teu amor, líquido
vibra nos trovões 
que deslizam do céu
enche meus pulmões de ar
e constitui as moléculas rígidas
de carbono 
nos troncos das florestas

O mesmo pulsar 
que me atravessa e me vê
que me funda e me funde 
na matéria de existir

Escorre agora na minha varanda
e respinga nas folhas das plantas que são minhas
mas que verdejam por estarem desde o começo dos tempos
enraizadas no teu solo fértil

Sagrado
é o azul escuro e fundo do céu estrelado

Sagrado
é o vento batendo as portas e arrastando as folhas pela casa

Sagrado
é o chão do mundo 
que descubro solo teu quando habito em ti


* * *

quarta-feira, 18 de maio de 2022

Mordida

As folhas secas
desintegração no solo úmido
esconderijo perfeito 
das formigas 

Uma acorda 
As patinhas correm embriagadas
Seu cheiro é muito mais 
Coisa de morder que folhas 

Mordidas ásperas 
desespero
Chão
Carinho 

Eu sei que doeu
Mas eu nunca mataria uma formiga dessas 

Esperta
Fez o que eu queria 
fazer desde ontem
Me traduziu 

Desculpa o corte 
Desculpa o susto
É um universo inteiro 
querendo me dar sua pele


* * *

domingo, 8 de maio de 2022

Rosa

Meu nome é mar
eu vou chegar 
partindo

Seu coração
Espuma e sal
fluindo

Eu virei célula
no teu corpo, mãe
dormindo

E só vinguei
brotei
porque teu mar
é lindo


* * *

sábado, 23 de abril de 2022

Raio

Quando o chão tocar o ar
Se for nuvem o trovão
A origem e o cessar
Ciclo da imaginação

Se de pó é o pensar
Se desfaz como carvão
Traço riscos pelo ar
Vento da intuição

A tinta solta pelas águas
Como um rio de devoção
Tua pele, espelho d'água
Me dilui o coração

A tinta solta pelas águas
Tela da imensidão
Tua pele, olhos d'água
Abre o mar

Revelação 
(Revolução)



* * *

sexta-feira, 25 de março de 2022

Espirais

Borboletas,
Nos encontramos no bater de asas
A caminho das nossas flores 

Em pleno voo
Traçamos linhas coloridas no ar 
Cruzamos nossos planos 

As rotas se espiralam 
às vezes em direções semelhantes 
A gente dança junto

Parece até que a flor é ali 

Engano
Logo nos perdemos 
força centrífuga 

não há eixo que nos fixe 

seguimos no voo
e continuamos na busca 
das flores que nos movem 

dá uma pontinha de tristeza 

Mas como é bonito
pelo caminho se deixar perder 
em asas coloridas 


* * *

sábado, 12 de março de 2022

Viagem

Aprender  a 
   
r                      
     e     p      o    u               
                               s    
                                     a    
                                           r       o   corpo 

no fluxo do tempo
Observar os ciclos 
que vêm e se vão 

I  n  s  p  i  r  a  r
Expirar 

D  i  l  a  t  a  r 
Contrair 

E  x  p  a  n  d  i  r
Recolher 

Entrelaçar
A  f  a  s  t  a  r 

Concentrar 
D  i  l  u  i  r 

C
   h
      e                    r
        g              i
           a      t
              r                  P
          a                      
      P   a   r   t   i    r   a   g   e  h  C
             a                   
          g                      r
       e                         
    h                            t
C
                                  i

                                  r




* * *

sexta-feira, 4 de março de 2022

Mapa

Continuar querendo atravessar
ser atravessada 

traçar contigo 
rotas em ti desconhecidas 

Desprender-me de mim 
para acolher o instante 

Vibrar mantras transparentes 
atrás dos teus cabelos  

Em oferenda todas as luzes
de nossos sorrisos não dados 

Adiados
Desejos velados 
Segredos selados 

Em reverência a todas as cores
De nossos fluxos cortados 

Censurados
Autoextirpados
Exilados 

Em querer dizer de todas as vezes
Dos dentes cerrados 
Das palavras contidas
Das ideias desfeitas no ar
Das frases apagadas antes de mandar
Das que foram enviadas apenas 
Telepaticamente 

Moro agora num outro país 
lá é bom 

Mas o exílio de ti
esse nunca passa


* * *