domingo, 12 de maio de 2024

Festa

A varanda da casa não via uma cena daquelas à muito tempo. 
Talvez nunca tivesse visto. 
A mangueira, habituada à festa tímida dos cactos e suculentas que agradeciam solenes pela umidade esporádica, não imaginava que o dia era da festa de outra espécie, a humana. 
Os humanos mesmo não precisavam de água por fora, não era lá uma questão de vida ou morte, de desidratação. 

Era uma questão de pele. 
Era a festa da pele. 

Fazia calor e era até fácil ter aquela ideia quando os sentidos não estão disciplinados à vida comportada. 
Quando se deixa pra lá o que convêm. 

Pois sim. 

A proposta foi a de tomarem banho, juntos, de sol e de luz, na varanda, e de mangueira. E como eram jovens e como era domingo, e como domingo fosse o dia do sim, foram.

Arco íris se desprendiam das gotas no ar e cachoeiras escorriam da pele. 
Os poros acordavam e a vida parecia muito viva. 
O calor ainda fazia correr um arrupeio nas peles, que agradeciam a carícia das águas. 
Pois sim. 
Banho de mangueira no jardim. 
Festa de humanidades, ritual dos agoras. 
E convite e primórdios das outras festas de depois, começada também nos poros, mas feita da linguagem de outras águas. 

sábado, 16 de março de 2024

Ora-pro-nobis

Quase nunca visto laranja
por fora
mas sempre por dentro

Nas cores das flores
no cobre do sol
nos flamboyants

Nas paredes cor de terra
nos crepúsculos
no tijolo de barro cru

Nas telhas da minha casa
atravessadas de luz,
nos tapetes

No mamão suculento
do café da manhã
nas tangerinas

Por dentro,
laranja é a cor
mais rente

latente
ardente
mais quente


* * *

sábado, 2 de março de 2024

Silêncio

 De vez em quando me vem um cansaço imenso de ser um ser que fala. 

As palavras parecem todas vazias de significado, a comunicação verbal um aparato inútil. Vejo os seres humanos ao meu redor, e eu mesma, articulando a boca sem parar e emitindo sons que nada dizem.

 Estamos perdidos uns dos outros. 

Tão ansiosos, tão cheios de porvir e esvaziados de presença. Parece que a gente se dilui na aceleração do tempo capitalista, viramos um borrão na tela, uma ideia fugaz, e mesmo ali diante do outro não passamos de uma rolada de feed. 

Radicalmente, esquecemos da gente mesmo. Parece que a gente flutua em tanta possibilidade que não é capaz de materializar nenhuma. 

Será que é isso, o futuro? Projeções mentais invisíveis sobre uma realidade cinza? 

Feeds coloridos e retinas incapazes de ver as cores reais? 

Gramas vizinhas sempre tão melhores que deixam o meu próprio jardim um lugar seco, desmerecido de cuidado e umidade? 

Tantas palavras me levam sempre a desejar o silêncio. 

Ah. 

Um longo e doce período de nada dizer. 

quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

Pólos

Oscilo entre querer tudo num raio:
Manifestação imediata
Instantânea
Urgente
Voraz 

E entre saber do tempo :
Que sabe que cada coisa tem o seu
Que cada instante vem de um transcorrer
Que todo fim é derivado de muitos meios
E que tudo passa 

Os dias em que estou no pólo do eu
Tomada de minha brevidade, espalhada na angústia de ser passageira e corpóreamente consciente da iminência da morte, apresso os passos do dia como se fosse possível me alcançar ali mais adiante, subir no horizonte um tanto mais cedo pra ver se ganho horas, pra ver se no acumulado dessa dança esperta de transpor o tempo acumulo algum dia a mais pra existir. 

Pra ver se vivo algum tantinho a mais.
Se vejo mais um desabrochar de flor, mais um sonho realizado, mais uma semente vingando. 
Pra ver se vem mais algum por do sol. 

No entanto, estando ali, imbricada na tarefa de adiantar as horas e dar oks em múltiplas listas, não me apercebo que ele se foi ainda mais depressa.
Caio na armadilha toda vez. 

E quando depois da correria infinda finalmente acolho arquejante os dias do outro pólo, o da lentidão, é que reencontro a eternidade. 

Nesse pólo, há tempo para ver como as nuvens deslizam e como se expandem no céu, e como são perfeitas no trabalho de se diluírem suavemente no azul. 
Há a possibilidade de notar que pelos buraquinhos da telha, nas falhas de encaixe, há um cinema invertido construído entre casa e céu em que as nuvens são as artistas principais e o sol, o projetor. 
Há esse milagre da ótica entre as teias de aranha do telhado. 
Neste pólo, reencontro olhos de olhar as folhinhas das árvores tremularem, e de ir notando as cigarras entrando no ar suaves como a noite se deixa cair sobre o dia. 
É também aqui que se admite ficar na rede, na penumbra, desde a hora em que ainda era tarde-brilhante. 

Que se vê a população do céu mudar das aves para os mamíferos alados que se movem pelo som. 
Ali os sons contornam novos mistérios, diferentes e inaudíveis, de tão agudos. 
Frequência sutil de captar. 

Ali, a vida inteira sussurra : 
Ê bichinha.
Vida é tarefa pra vida inteira. 
Faça favor - desça da esteira e vá viver.


* * *

terça-feira, 12 de dezembro de 2023

Olhos são portais (de novo)

Por isso tanta beleza em olhar no olho do outro:
É como se aproximar da porta de um universo

Por isso a reverência
Por isso o encantamento 
Por isso o silêncio 

Por isso a gente foge também 
Olha de lado
Desvia
Para pra respirar um pouco
Para pro susto poder minguar 

Para pra retomar a alma que já tava lá querendo ir porta a dentro, 
sem saber de nada, 
sem medir medidas da razão.


* * *

terça-feira, 31 de outubro de 2023

Bruxas

Quando o céu parece baixo demais e todos os passos, acelerados,
Quando a rotação da terra não nos chega nos nós,
Quando todos os pássaros estão ausentes, 

Ciganas e feiticeiras, dançamos. 

Riscamos o ar com a ponta dos dedos e o chão com os pés, em círculos capazes de reestruturar a dinâmica da existência, em bamboleios sonoros sincronizados com a matéria constitutiva do universo. 
Mergulha-se no vento como quem parte ao meio todo um mar, como quem sabe da densidade de todos os oceanos. 
Como quem domina todas as leis da física e pode por isso superá-las. 
E cria, a partir delas, jeitos novos e lentos para existir no agora. 

Reconhece-se uma irmã pelos olhos e pelas mãos:
Tudo nela dança. 



P.s.: 
Não há domínio sobre lei nenhuma, 
e não há mística maior que dançar a vida e o que nela há pra dançar.  
Nada está sob controle porque tudo dança.



* * *

domingo, 22 de outubro de 2023

Olhos são portais

Olhos são portais. 

Essa frase é uma ideia que nunca continuei. 
Olhos são portais. 
Escrevi isso depois de olhar nos olhos de um amigo há muitos anos, e a frase ficou intacta. 
Parada no ar.
Resolutiva.
Achei que iria virar um poema, que fluiriam os outros versos logo em seguida.

Nunca vieram.

Talvez porque seja apenas isso.
Olhos são portais. 
E aí, parar pra pensar nos tantos portais que já estiveram diante dos seus, transparentes ou opacos, portas fechadas ou abertas, fluidez ou dureza, doçura ou mágoa.
Apenas isso. 

Ser gente, e ter a possibilidade de atravessar essa existência estando diante de outros olhos já é coisa muito obtusa, e nisso aí não tem poema que chegue, nem letra de canção nem instrumental que vá lá no que é.
 
Bom.
Até que tem, mas vá lá : 
não é lá a mesma coisa. 


* * *