terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

Presságio

É verão

Quando a lua nascer
Quem sabe as cigarras cantem

Como quem vê nela 
o sol 


* * *

segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

Sobre domingos e ter tinta sobrando

É Dezembro e choveu. 
A cajazeira começou a brotar folhinhas cor de verde limão. 
E eu, como tinha tinta, pintei a janela da mesma cor . 
Pois sim. 

Tenho que registrar que me fiz ridiculamente feliz em misturar as cores e sacolejar a lata de tinta até encontrar o tom certo. 
Achei. 
A-chei. 
Fiquei numa alegria incontrolável e já era domingo e mais de oito da noite, mas eu já era causa perdida mesmo e pintei até tarde, até terminar não só a janela mas também a porta de entrada. 
Depois pensei por uns minutos se o verde limão não era muito estímulo e se com aquela energia toda eu ira um dia dormir. 
Será que era isso mesmo? 
Tarde demais. 
Dormi. 
Quando amanheceu, com a luz do dia, abri a janela e notei que era isso mesmo. 

Pois me dá um comichão engraçado e um sorriso monalísico pensar que pintei tudo de uma cor tão neon. 
Eu que adoro beges e terrosos. 

Mas agora é como se a cajazeira estivesse aqui, plantada no meio da minha casa. 
Ela vai e vem transportada na luz do verde limão.
Entra na minha casa e dá bom dia no café da manhã, me deseja um trabalho ótimo e me saúda na volta, já menos verde brilhante e já meio envolta nas sombras do fim da tarde.

Pois seja bem vinda minha amiga. 
Vá ficando sempre a vontade. 
E sente aqui que já vou passar o café.

* * *

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

Fundamentos

Rebrilhar do sol 
luz na lagoa
Verde e azul 
e por sobre a ave que voa 

Deslizar de lado e se sentir lá
na luz e na garça
em cada gota e no ar 

Querer a coragem do peixe
Que sem saber das correntes
Recomeça o atravessar 

Ensaiar a bravura das nuvens:
chover em névoa em chuva
Dissolver o medo e sumir no mar

É cedo da quinta-feira. Chove e eu desço do carro meio longe da entrada pra poder tomar um pouquinho de banho de chuva. Inicio pois o dia com uma ideia de experimento: 

Saber-se terra 
e mesmo assim 
querer se lançar 
às águas.



* * *


quarta-feira, 20 de novembro de 2024

O outro pólo

Eu não tenho calma para dar às horas
Eu não tenho cara de quem demora
Eu tenho um punhal
Que rasga no tecido do tempo um portal
Que abre a trilha para as outras dimensões 
Que não teme o frio das solidões
Eu não quero esperar do tempo um presente
Eu quero ser eu quem presente está 
Desfazendo as loucuras do nosso tempo com a sinceridade de quem aberto está
Sereno 
Sensível
Matável
Abrível 
Acessível 
Encontrável 
Vivível


*

Giz

Difícil é desaprender as mãos habituadas ao teu corpo
As rotas dos tremores e arrepios já tão traçadas 
Das alegrias úmidas 
Dos suores abundantes
Das risadas conjuntas 
Da leveza do abraço e do perfume envolvente 
Do olhar sério e brincante de quem muito ama mas finge esquecer
Faz passatempo e dribla o próprio choro em mais um riso descontraído
Brinca que vai hoje abrir um vinho e colocar um brega antigo
Lamentar e adorar o tempo que tivemos 
Pouco 
Mas felizmente lindo
sem nenhuma queixa 

Quero te guardar leve
Asa de passarinho 
Semente de pajeú 
Pipa 
Riso de criança 
Compasso do reggae 

Tua condução é um vento que aflora minha fé no amor para além do a dois 
Para a calma e para a dança 
Para a esperança 

Ps.:
Amores de giz 
Se fazem lindos
E somem no ar



* * *


["eu desço dessa solidão e espalho coisas sobre o chão de giz"]

sábado, 9 de novembro de 2024

Membrana

Tenho o riso e o choro frouxos.
Faltaram parafusos e os sensores na pele vieram em excesso.  

Tudo que vem de fora atravessa e estrala aqui como se já viesse de dentro. 
O ser em rede fica um pouco mais evidente e mais fácil de captar.

O difícil mesmo é ver q a membrana tá ali. 
Mas ela tá. 

Frouxa que seja, transporte ativo ou passivo acontecendo a toda hora e a todo vapor na relação com tudo, em se perceber em tudo, em ser parte do todo. 
Mas ainda, ser. 


*

Quase

Coleciono amores não realizados numa sacola transparente.
Quase encontros. 
Ventos que sopraram tão de leve que nem marca deixaram.
Nem volume ocuparam na sacola.
Mas estão lá.
São apenas sopro que move um meio sorriso ou outro, que riscam o céu da lembrança feito cometa breve, centelha de luz que se vai. 
Suspiro. 
Ideia passageira, rememoração.
Casa secreta de histórias que se desenrolaram numa dimensão outra, num mundo paralelo.
Portal da coincidência dos quase-destino. 
Encontro de mundos-quase. 
Pilha de dobras no espaço-tempo e buracos que a agulha quase perfurou. 
Quase. 
Pois sim. 
Acho bonita a palavra quase. 

Acho que um monte de gente já falou sobre isso de maneiras diferentes, com alívio ou com frustração. 
Quase. 
A partida de jogo que quase dá a vitória do time favorito.
O voo que quase deu pra pegar.
A meta que quase deu pra bater. 
O projeto que quase dava certo mas foi pra gaveta. 

Pois pensei agora que antes do quase e com o quase tem um universo tão denso de coisas que acontecem que a gente até  que podia ser mais generoso um pouquinho com o quase e saber que nele, ali, já tem tanta beleza que já basta. 
Tanta energia de vida, tanta pulsão, tanto trabalho e tanto desejo.
Tanto movimento. 

Pois sim.
O quase já é. 

E não é uma palavra bonita pra dizer assim letra por letra? 
Q u a s e ?



* * *