quarta-feira, 20 de outubro de 2021

20 de outubro

Eu gosto de mandar recados
assim pela lua
assim pelo vento
pelas nuvens e pelos pássaros

Que as palavras 
são sempre menos que o silêncio
que não dizer nada 
é sempre mais que dizer

Te envio então os meus silêncios
olhares reverentes para o céu de outubro
mergulhos azuis na noite já adiantada
espaços vazios entre o cintilar das estrelas


***

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Fechamentos

Não há culpa nem nada
Apenas desaprendeste 
A ler nos meus olhos 
as verdades transparentes

Escorridas em lágrima 

Finas demais 
para serem deixadas à margem
Discretas, mas poderosas
Poderiam redefinir os rumos 

Do corpo brotaram soluços cabais
Angústia e urgência
Estavam ali 
Desejo desesperado de ficar 

Por vezes intermináveis 
eu fui líquida
Acessível 
Tangível e aberta 

Os olhos aos borbotões 
Vazaram muito mais que sinais
Eram gritos,
Não ouvistes? 

Havia desejo e possibilidades
Eu estive aqui
E vistes,
Mas tinhas outros afazeres. 

Estava ali toda a vida possível
Parecias morto
Ao invés de pulso,
O nada 

Estranhei
Me fiz viúva em vida
Por isso o luto
Por isso o silêncio 

Os olhos tristes 
vageando nas coisas
A despedida inconsciente
Nas felicidades 

Fui dizendo adeus 

Desde o dia que morrestes 
Não tive mais tempo para teu ciúme
Nem para me debater
Nem para debater 

Tudo que fazias era luto e adeus
Cada palavra áspera 
escorrida da sua boca
te ajudou a morrer

Foi uma boa morte.

não foi preciso mais nada
além de te arrancar de mim
pela raiz

e me plantar no seu lugar
e por semente
no lugar que sempre foi meu


*

Tribos

"Primeiro foi a tribo Paraxó  (diz, confusa, meio no sonho, meio aqui)

"Lá era tudo tão bom...

O mar dos índios é muito lindo, minha filha."


* * *

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

Achados arqueológicos

 Ainda existe gente

Que troca abraços gratuitos

Que cria laços indissolutos

Que ama fora de seus redutos


Ainda existe essa gente 

Que se bota a forçar as cordas 

Que rompe limites e bordas

Que costura afetos nos fios das notas


Ainda existe este olho-coragem

Que se mantêm no meu

Que me traz à margem

Que me vê quem sou


Que ainda assim fica

Que ainda assim se dá

Que dá de ombros pros meus desajustes

Que me vê integral


Humana e ambivalente

Volúvel e fugidia

Insegura

De carne


Ainda assim restam olhos-laços

Que enxergam tudo isso

Só como ser gente

Só como ser parte


Os desvios da mente 

e as estrias do corpo

As inconsistências

e as belezas


Todos os fragmentos

de um pacote inteiro de vida. 

sem propor culpa 

ofertam presença e mais nada.


(isto é graça que basta)


***

domingo, 29 de agosto de 2021

Lembrete

Lembrar que nunca seremos suficientes
que a humanidade é exatamente 
sobre a falta, sobre os buracos

A falta move a procura
guia a transformação

Estamos aqui não para encontrar 
o preenchimento de fato, 
mas para caminhar na direção do mutável

Que seja doce cada aprendizado
Que cada dia do processo valha e seja vida
Que a vida inteira seja inteira de vida


*

domingo, 22 de agosto de 2021

Lua azul

Os fazeres com que ocupamos as mãos 

nos transformam

Traços, rabiscos, agulhas e linhas

Colheres, réguas, compassos

Níveis de bolha e pá

Me constituem

Trocam fagulhas com meu dna

Flertam com os genes sem no entanto

neles se expressarem


Ou talvez se expressem


E nossos microscópios ainda não sejam

potentes o bastante para traduzir estas

belezas herdadas em mistério

Em silêncio

Em ato repetido

Em ritual cotidiano


Características adquiridas 

entre os bolos de milho e as conversas da tarde

Entre o mingau de carimã e o boa noite

Bordadas em minha pele feito as colchas

de restiliê


Pelas frestas das quais me tornei

permeável à você, senhora

Minha amiga

Meu par

Minha avó.


* * *