sábado, 21 de junho de 2025

Sensação do feriado

De novo no signo das águas
O sol 

O pensamento se vê líquido
Sem sustança 
Apenas substância
Que se esvai e se contorce tarde afora pela chuva 

Serpenteia 
Contorna 
Caminha a esmo 
Não chega 
Enrola no caminho fazendo todas as voltinhas possíveis 

Volteando o impossível 
Delineando o inevitável
a preguiça como guia
Esvaindo o resto da luz do dia 

Logo será noite
E o artigo terá que se fazer à luz elétrica
[Ninguém quer dar a luz à um artigo quando o sol está em câncer]

A vida afoita pela água se demora nas madrugadas de sono bem dormidas
Nos sonhos profundos e bonitos 
No acordar lento e manhoso que faz a cama parecer uma grande teia ou um enorme pote de mel que gruda todas as asas e condiciona os mortais à lua minguante 
Rebatidos no chão e arrastantes 
Corpos-rios-mansos 
Antigos 
Líquidos


*

terça-feira, 27 de maio de 2025

Inverno

Quantas vezes o corpo padecido chora urgente pelo tempo
Por quebrar as artificialidades que criamos para apenas ser
Para vaguear serenos na suspensão de tudo 
Sumidos do mundo e aparecidos dentro
Encontrados apenas na saleta do coração 

Invisíveis do wifi e do sinal de telefone
Inencontráveis nos telemeios convencionais 
E vibrantes e visíveis apenas nos reinos telepáticos 

Em que as pessoas vivem orientadas  pelos sensores do corpo
Ouvem suas vozes internas 
E contam umas às outras os seus sonhos 

Penduram suas redes nas árvores em volta 
Curam as confusões da cabeça com descanso e banho de ervas
E com o desfazimento radical das ilusões dos poderes 

Ah, as ilusões
Lindas, todas
Brilhantes feito as luzes de muitos refletores de led 
Iluminando todos os salões e encandeando todos os olhares

E ainda assim mortas 

Incapazes de germinar a vida 
com tanta luz fria 
e branca
branca e inóspita
Esvaziada de fôlego 

Quando eu me sentir morta quero lembrar que posso talvez estar em estado de semente
E usar as energias restantes pra me enfiar na terra, e para deitar ao sol
E aguardar que uma fissura na casca faça entrar a água 

E inchar
E encharcar
E deixar a luz dourada e amarela 
me ebulir 
me chocar
me explodir
De um jeito outro, 
renascer. 



* * *

segunda-feira, 19 de maio de 2025

Canção desconfigurada

Canção de beira de estrada 
Nenhuma forma de crer 

Nenhuma forma de nada 
E o atalho é esquecer 

Nem multidão na estrada 
Nenhuma forma de ver

Quase você
Quase você
Quase você
Quase você 

Nenhuma história triste partiu
Nenhum evento que cancelou
Não era mais primeiro de abril
Só um dia qualquer que acabou 

Quase você
Quase você
Quase você
Quase você 

No hemisfério sul as geleiras derretem mais 
Olhar pro céu azul ainda é uma forma de cais
As mudanças climáticas derrubam drasticamente 
as casas dos que já não tem 
nada demais


* * *




[Escutei essa canção na voz da adriana cancanhotto e do arnaldo antunes, num show-sonho que parecia dos dois juntos. Kkkk. Eles fantasiados de um jeito meio astronauta, meio etevaldo do castelo rá tim bum, o que tornava difícil ou menos óbvio reconhecer quem era quem, exceto pela voz na hora que emitiam cada verso rsrs. 
a última estrofe, inclusive, é na voz dela falada, ao invés de cantada.
Sim, isso tudo foi um sonho meu de ontem pra hoje. 
Os dois fizeram shows aqui no ceará recentemente e eu não fui à nenhum deles e acho que essa foi uma forma da minha cabeça me consolar do quanto a gente quis estar lá.]

domingo, 11 de maio de 2025

Astra rainha

Ser mulher é viver com a lua a perturbar as entranhas
Ter a água de todas as marés dos mundos visíveis e invisíveis 
a preencher e esvaziar o corpo de tempos em tempos

Sentir-se enlouquecida pela luz na fresta do telhado 
no meio da madrugada e ter que dançar

Ter que se diluir nos mistérios do corpo 
Aberto 
Disperso 
Fechado
Incompleto  

Sempre movendo-se pela força gravitacional insuportável que tudo orquestra 

Girar em círculos enquanto a terra gira 
e feito a dança de todas as águas 
se lançar ao céu 
na esperança absoluta de qualquer hora finalmente encontrar a astra rainha

A centelha deste espaço sideral cá embaixo
Aquela que branca e nua e reluzente acende todos os olhares em sua direção 

Atrai 
Magnética
Todos os corpos terrestres 
Todas as linhas de dúvidas 
Todos os quereres e poderes 
Todos os desejos de ser e de estar
Todas as sementes de vir a ser 
Todas as colheitas 
Todas as onças nas capoeiras 
Todos os cachorros em uivos ancestrais 
Todas nós em rodas de cantos e danças formadas bem dentro 

Bem antes da criação da palavra
O verbo-corpo pairava sobre as águas
E a lua era o início do que seríamos nós. 


* * *


[Quem consegue dormir numa lua quase-cheia e ainda crescendo em escorpião?]

segunda-feira, 21 de abril de 2025

Pirapora, o rio-portal

Era uma vez um rio com nome de peixe 
Peixinho que pula 
Ou salto do peixe : 
Pirapora. 

O rio era um portal mágico.

De tempos em tempos 
Todos os bichos dos arredores passavam pelo portal mágico 
para se reunirem para uma grande festa secreta. 

Quando andavam pela sombra das árvores do rio-portal, 
todos os bichos chegavam seguros na floresta da montanha para a grande festa da vida. 

A montanha se chamava Laíla
Que com sua saia de árvores, plantas e cogumelos sustentava tudo o que existia por ali 

Com ajuda da Mãe Água, Laíla criou o rio Pirapora como um lindo convite à todos os seres para sua grande festa. 

Do mar vieram muitos peixes e aratanhas - que descobriram que a festa da princesa Laíla era o melhor lugar para colocar seus ovinhos e criar seus filhotes. 

Num daqueles dias de festa, houve uma grande surpresa para Laíla : 
surgiu o sapinho Adelophryne, que já nasceu na montanha 
e ninguém soube dizer ao certo de onde veio. 

Vieram também muitos pássaros, macacos-prego, cutias, soins e humanos amigos, 
Que amavam Laíla e eram felizes na sua festa. 

Inventavam pesca noturna na lata
Banho de rio na mata,
Olhar as pedras formando cascata, 
Brincadeira pra gente grande, 
pra criança, 
e até pra doguinho vira lata! 

Mesmo sabendo de tanta coisa legal
De vez em quando algum humano esquece que o rio é o portal 
e resolve destruir a floresta sagrada do rio e da montanha
Abandonando a história ancestral 

Um ou outro humano esquece até que seus avós dançaram e foram muito felizes naquela festa. 

Para estes humanos esquecidos, nossos avós vem perguntar: 
Se não tiver rio, por onde é que Mãe-Água vai caminhar?
Porque fechar o portal secreto e fazer a festa de bichos e amigos acabar ? 

Mas quando a chuva cai do céu as águas intensas arrebentam nas pedras e vem de novo lembrar :
Pirapora é território sagrado,
É ponte que nasce na serra e leva as águas de novo pro mar. 

É por isso meus amigos, para a grande festa da vida continuar 
Que bichos e humanos fizeram um trato para o portal secreto reflorestar. 

E nós também nos unimos à princesa Laíla nesta grande missão: 
Vamos cuidar do rio-portal,
Plantar cada um uma árvore, 
Ser da floresta de pé, guardião. 

E de quebra, brincar nas águas,
Fazer piquenique na sombra,
Conversar e cantar um refrão: 
Curtindo essa festa juntos
nunca acaba a diversão.  



* * *


[Esse aqui foi um poeminha que minha amiga Lina pediu pra eu fazer pro Pirapora (o rio que me atravessa), pra ela poder ilustrar e fazer um projeto de livro infantil como exercício do curso de design dela. Obrigada Lina por me botar pra parir essa historinha!] 

quinta-feira, 10 de abril de 2025

Passeio completo

Na madrugada
Quando o cérebro desliga
Minha loucura sai pra passear 

Inventa peixes novos
Cenas absurdas 
E canções inéditas acompanham o devanear 

Mas quando sonho contigo
Não lembro de nenhuma canção
Acordo atenta 
Atônita
Surpresa dos caminhos que os sonhos vão 

Outras ilhas 
Outras casas
Outras vidas 
Flashs


Fresta da fechadura 
Abertura na armadura
Fissura na estrutura
Luz na gravura
Iluminura 

Acordo calma do passeio 
Repasso o que vi
O problema do sonho é que todas as sensações são reais
A calma
A naturalidade
(O cérebro tão espertinho que nem pra diferenciar as coisas se presta a acordar) 

Afundo a cabeça em todos os travesseiros
Em todas as camadas possíveis de lençol 
Viro de lado como quem quer trocar a fita 

A repetida
A inacabada
A insuportável
A mais desejada 

Penso que tem dia que é
Intragável 
Ser ariana e ter a lua em touro
Não ter paciência nenhuma pra insistir 
E ver o coração lá
De teimosia 
"Batendo parado 
naquela estação " 

Paradoxalmente 
O sol 
marte
E saturno 
Já me arrastaram por outras 5 estações
7 com as 2 que a vênus criou
Não parei de corpo
Não parei de alma 

Mas quando o cérebro desliga
Todos os cosmos confluem 
e eu não escapo 

A loucura sai pra passear 
Branda 
E costura uma teia fina,
Um portal : 

A loucura ontem quis encontrar você. 



sábado, 29 de março de 2025

Sol II (segundo o sol)

Hoje pedi ao sol que me emprestasse um pouco do seu brilho
Um pouco da sua habilidade de recomeço
Um pouco da sabedoria de refazer tudo do nada
De fabricar auroras reluzentes chamuscadas de luz
De indicar o caminho da vida a partir de moléculas aleatórias no espaço 
De agregar e de dissipar 
De evaporar 
De criar outros estados da matéria 

De, sendo o mesmo há milênios
Ser capaz de milagres tão distintos : 
Dar origem às nuvens
Provocar seu desfazimento
Ressecar até a última gota do solo 

E nunca se cansar de fazer todo o caminho de novo
De entender o espiralamento da existência como coisa óbvia
A repetição não como tédio 
Mas como novidade do hoje 

E assistir ao desenrolar da vida que lhe cerca 
com seus dois olhos de brasa 
Sorridentes,
Ávidos pelo futuro.

terça-feira, 25 de março de 2025

Sol

Feriado.
As pernas abertas para o sol de março 
A luz vasculha todos os lugares esquecidos 
O sol é uma coisa quente que a pele sempre ama secretamente. 

O ano novo do sol se inaugurou esses dias em áries: 
A loucura sacolejando dentro como a roupa no tambor da máquina
Voltando 
girando 
batendo 
timidamente se esfacelando pelo contato 

E o sol quarando tudo
O sol quarando até a gota mais querida dos orvalhos passados 
Evaporando as plantas frágeis
Os musgos 

Evaporando os mofos 
(Essa parte, amém) 

As nuvens deslizam preguiçosas para longe do sol como quem diz que o céu hoje é dele
E brincam de recortar o azul 

Suspiro. 
Que pode um mortal contra a força de todos os astros? 
Suspiro. 
Passa um urubu bem miudinho.
Suspiro. 

Que pode um mortal, senão, feito urubu na nuvem, dançar com a força de todos os astros? 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

Presságio

É verão

Quando a lua nascer
Quem sabe as cigarras cantem

Como quem vê nela 
o sol 


* * *

segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

Sobre domingos e ter tinta sobrando

É Dezembro e choveu. 
A cajazeira começou a brotar folhinhas cor de verde limão. 
E eu, como tinha tinta, pintei a janela da mesma cor . 
Pois sim. 

Tenho que registrar que me fiz ridiculamente feliz em misturar as cores e sacolejar a lata de tinta até encontrar o tom certo. 
Achei. 
A-chei. 
Fiquei numa alegria incontrolável e já era domingo e mais de oito da noite, mas eu já era causa perdida mesmo e pintei até tarde, até terminar não só a janela mas também a porta de entrada. 
Depois pensei por uns minutos se o verde limão não era muito estímulo e se com aquela energia toda eu ira um dia dormir. 
Será que era isso mesmo? 
Tarde demais. 
Dormi. 
Quando amanheceu, com a luz do dia, abri a janela e notei que era isso mesmo. 

Pois me dá um comichão engraçado e um sorriso monalísico pensar que pintei tudo de uma cor tão neon. 
Eu que adoro beges e terrosos. 

Mas agora é como se a cajazeira estivesse aqui, plantada no meio da minha casa. 
Ela vai e vem transportada na luz do verde limão.
Entra na minha casa e dá bom dia no café da manhã, me deseja um trabalho ótimo e me saúda na volta, já menos verde brilhante e já meio envolta nas sombras do fim da tarde.

Pois seja bem vinda minha amiga. 
Vá ficando sempre a vontade. 
E sente aqui que já vou passar o café.

* * *

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

Fundamentos

Rebrilhar do sol 
luz na lagoa
Verde e azul 
e por sobre a ave que voa 

Deslizar de lado e se sentir lá
na luz e na garça
em cada gota e no ar 

Querer a coragem do peixe
Que sem saber das correntes
Recomeça o atravessar 

Ensaiar a bravura das nuvens:
chover em névoa em chuva
Dissolver o medo e sumir no mar

É cedo da quinta-feira. Chove e eu desço do carro meio longe da entrada pra poder tomar um pouquinho de banho de chuva. Inicio pois o dia com uma ideia de experimento: 

Saber-se terra 
e mesmo assim 
querer se lançar 
às águas.



* * *


quarta-feira, 20 de novembro de 2024

O outro pólo

Eu não tenho calma para dar às horas
Eu não tenho cara de quem demora
Eu tenho um punhal
Que rasga no tecido do tempo um portal
Que abre a trilha para as outras dimensões 
Que não teme o frio das solidões
Eu não quero esperar do tempo um presente
Eu quero ser eu quem presente está 
Desfazendo as loucuras do nosso tempo com a sinceridade de quem aberto está
Sereno 
Sensível
Matável
Abrível 
Acessível 
Encontrável 
Vivível


*

Giz

Difícil é desaprender as mãos habituadas ao teu corpo
As rotas dos tremores e arrepios já tão traçadas 
Das alegrias úmidas 
Dos suores abundantes
Das risadas conjuntas 
Da leveza do abraço e do perfume envolvente 
Do olhar sério e brincante de quem muito ama mas finge esquecer
Faz passatempo e dribla o próprio choro em mais um riso descontraído
Brinca que vai hoje abrir um vinho e colocar um brega antigo
Lamentar e adorar o tempo que tivemos 
Pouco 
Mas felizmente lindo
sem nenhuma queixa 

Quero te guardar leve
Asa de passarinho 
Semente de pajeú 
Pipa 
Riso de criança 
Compasso do reggae 

Tua condução é um vento que aflora minha fé no amor para além do a dois 
Para a calma e para a dança 
Para a esperança 

Ps.:
Amores de giz 
Se fazem lindos
E somem no ar



* * *


["eu desço dessa solidão e espalho coisas sobre o chão de giz"]

sábado, 9 de novembro de 2024

Membrana

Tenho o riso e o choro frouxos.
Faltaram parafusos e os sensores na pele vieram em excesso.  

Tudo que vem de fora atravessa e estrala aqui como se já viesse de dentro. 
O ser em rede fica um pouco mais evidente e mais fácil de captar.

O difícil mesmo é ver q a membrana tá ali. 
Mas ela tá. 

Frouxa que seja, transporte ativo ou passivo acontecendo a toda hora e a todo vapor na relação com tudo, em se perceber em tudo, em ser parte do todo. 
Mas ainda, ser. 


*

Quase

Coleciono amores não realizados numa sacola transparente.
Quase encontros. 
Ventos que sopraram tão de leve que nem marca deixaram.
Nem volume ocuparam na sacola.
Mas estão lá.
São apenas sopro que move um meio sorriso ou outro, que riscam o céu da lembrança feito cometa breve, centelha de luz que se vai. 
Suspiro. 
Ideia passageira, rememoração.
Casa secreta de histórias que se desenrolaram numa dimensão outra, num mundo paralelo.
Portal da coincidência dos quase-destino. 
Encontro de mundos-quase. 
Pilha de dobras no espaço-tempo e buracos que a agulha quase perfurou. 
Quase. 
Pois sim. 
Acho bonita a palavra quase. 

Acho que um monte de gente já falou sobre isso de maneiras diferentes, com alívio ou com frustração. 
Quase. 
A partida de jogo que quase dá a vitória do time favorito.
O voo que quase deu pra pegar.
A meta que quase deu pra bater. 
O projeto que quase dava certo mas foi pra gaveta. 

Pois pensei agora que antes do quase e com o quase tem um universo tão denso de coisas que acontecem que a gente até  que podia ser mais generoso um pouquinho com o quase e saber que nele, ali, já tem tanta beleza que já basta. 
Tanta energia de vida, tanta pulsão, tanto trabalho e tanto desejo.
Tanto movimento. 

Pois sim.
O quase já é. 

E não é uma palavra bonita pra dizer assim letra por letra? 
Q u a s e ?



* * *



quarta-feira, 2 de outubro de 2024

Ela

Ela
Onça luminosa 
atravessando a vidraça
Olhos coloridos 
Luzindo cor e fumaça
Passa suave 
Passo silencioso 

E ruge na sua cara 

Descortinando 
os altares do medo
Derrubando pelo chão 
a pilha de temores 
Tudo desfaz em cores 
Incide em toda 
e qualquer fresta
Com seus rigores 

Seus desejos? 

Contrastar
Contrapor
Atravessar 
Transmutar
Bagunçar 
Revirar 

Salta do sol para os olhos 
E pisca nas sombras 


Venha dançar, minha fera
Entre todos os cacos 
Entre todas as poeiras 
e por sobre as pilhas 
de coisas velhas esquecidas 

Onça divina, de luz pintada: vinde, 
"Transformai as velhas formas do viver". 

* * *

[sobre a força divina que recria a vida 
sobre chegar em casa de novo
e de novo, não ter morrido de avião, rs]


quarta-feira, 11 de setembro de 2024

Medo

O medo tudo para
Tudo repara
Coleta do caos uma apára

Encontra na sombra uma amarra
Tece uma teia que agarra 
Oculta qualquer jóia rara 

Impede a limpeza da fala
Engasga a garganta na marra 
Atravanca, cancela a farra 

Rasga no meio a ternura
Protege a inércia mais dura
Desconfia da arte mais pura

Te leva na linha da loucura
Subtrai qualquer fé na candura


*



[ Sobre medo de avião e de ter sido tão feliz a ponto de achar que logo em seguida só se pode morrer de avião]

terça-feira, 13 de agosto de 2024

Pantera

Não estamos à mesa 
para que venham os talheres de prata 
para que venham as bandejas 
para que venham as taças de cristal 

E num banquete plácido 
nos devorem 
enquanto limpam nossos fluidos do canto da boca com guardanapos bordados
Harmonizadas com vinho rosé 
Enquanto bêbadas acreditamos estar plenamente satisfeitas num banquete que nos 
Desossa
Dessora 
Disseca 
Resseca 

Nós, fontes de tantas águas 

Uma pantera de olhos verdes 
hoje me disse 
Case, minha filha
É o que as filhas de Jeová fazem de mais certo na vida
A pantera, no entanto, 
Nos seus 77 anos bem vividos 
Teve dois filhos lindos
Vários amores
Muitos banhos de rio e de açude 
E passeios ao sol :
Nenhum marido 

A senhora é casada? 

Seus dois olhos riram 
e a gargalhada foi alta 
quando respondeu :
Graças a Deus, não.


* * *

 
( Sim, essa história é mais ou menos real e se mistura com uma pintura da carol burgo que me deixou impressionada por ter aparentemente a ver com uma conversa maravilhosa que tive na fila do posto de saúde no mesmo dia . 
a pintura: https://www.instagram.com/p/C-nizh_PDXR/?igsh=cHV0ZWs5c2Fwc2x0 ) 

segunda-feira, 24 de junho de 2024

Inquietação

Fome
Fome da própria
Fome 

Fome de vida
Fome de ver da de
Fome de no vida de 

Vida de verdade
In vade o centro
Da von ta de 

E rasga o cerne 
Da vai da de 
Reelabora a
Par ti tu ra 

Desfaz o 
Me do 
da verdade 

Iluminura

Me inaugura
Em ser de novo 
Li ber da de


*  *  *



Às fomes que despedaçaram aquilo que fui 
(e àquelas que ainda me despedaçarão)




sexta-feira, 17 de maio de 2024

Âncora

De submersas 

palavras 

nas entranhas 

do que disse 


Submarino 

deslizante 

no oceano 

da mesmice


Ao súbito soprar na superfície


* * *